Por: diario | 07/05/2019

Após o anúncio do Ministério da Educação revelando que as instituições de ensino federais irão sofrer bloqueio de 30% dos orçamentos para 2019 muitos profissionais da área da Educação, acadêmicos e pessoas de toda a comunidade tem contestado a mudança, afirmando que a redução vai impactar negativamente na educação brasileira, inclusive no Alto Vale. Não somente as universidades federais, mas as estaduais também sofrem com esse corte, ainda que menor.

A rede federal inclui mais de 60 universidades e quase 40 institutos em todos os estados do Brasil. A professora, mestre, e doutoranda que leciona no Instituto Federal Catarinense Campus Rio do Sul, Bruna Donato, lembrou que as universidades e os institutos federais representam o acesso à educação de qualidade ao brasileiro que está previsto na Constituição Federal e que tem uma função social. “ No caso dos institutos federais, a interiorização do ensino público, ou seja, a presença de institutos federais em regiões com grande demanda de profissionais bem formados representa uma ação democrática no sentido de proporcionar o direito social previsto na Constituição Federal que é a educação”, disse.

De acordo com a ela, o corte de verbas, no caso do IFC representou 39% no setor de custeio da instituição, o que significa 18 milhões de reais, o que impedirá a continuação do trabalho. “A justificativa do Ministério da Educação é de que esse dinheiro seria investido na Educação Básica que, para ele, é o nível de educação com maior precarização, no entanto não estamos vendo ações nesse sentido”, argumentou.

A professora lamentou ainda o anúncio feito pelo MEC e disse que o corte pode comprometer o bom trabalho que vem sendo feito. “O IFC tem contribuído imensamente para as demandas profissionais e tecnológicas da região do Alto Vale do Itajaí, transformando pessoas em bons profissionais e esse corte pode comprometer esse trabalho. Em Rio do Sul, temos o predomínio de alunos cujas famílias são trabalhadoras rurais e que se sustentam no mínimo para garantir a sobrevivência. Os cursos ofertados em Rio do Sul representam uma melhora de vida e de perspectiva para nossos alunos e suas famílias e sabendo dessa responsabilidade, é que trabalhamos com tanto empenho diante das nossas possibilidades”, afirmou.

Para ela o corte representa ainda uma afronta à universalização do ensino porque está previsto na legislação educacional brasileira o investimento do Governo Federal em todos os níveis de educação. “Quando falo de níveis quero dizer Educação Infantil, Ensino Fundamental, Ensino Médio e Ensino superior e pós-graduação, mas há anos estamos assistindo cortes nesses investimentos que estão precarizando a educação pública e sabemos que há um projeto e um propósito em demonizar nosso trabalho, sobretudo docente, por traz dessas ações”, complementou.

Ela lembrou ainda que o corte de investimentos para as universidades federais, por exemplo, refletirá no funcionamento e na organização dos hospitais e clínicas universitárias. “Locais onde o atendimento ao público ocorre por meio do SUS, laboratórios, pesquisas e tratamentos promovidos pelas universidades estarão prejudicados. A pós-graduação, que é onde se realizam as pesquisas no Brasil e que resultam em medicamentos, em tratamentos de saúde tanto físico quanto psíquicos, em soluções para questões de produção rural e agropecuária, em soluções e inovações tecnológicas, em melhoramento das questões sociais e econômicas, na valorização cultural, ou seja, em todas as esferas da sociedade brasileira ficará precarizada”, reafirmou.

A professora especificou ainda, dizendo que os Institutos Federais Catarinenses sofreram muitos impactos com o corte, além da região do Alto Vale onde existe uma grande demanda de pesquisas. “Trava o trabalho que temos em proporcionar experiências práticas que viabilizam a extensão e a pesquisa, ou seja, corta, primariamente ações no trabalho desenvolvido para a comunidade no entorno da região, sobretudo aqui no Alto Vale que há uma demanda grande de pesquisa e auxílio nas esferas econômicas e sociais. Que a comunidade saiba entenda essa atitude do Governo Federal como uma afronta a própria sociedade. Que os rio-sulenses e a comunidade ao entorno saibam que isso os afeta e afetará mais ainda, pois a possibilidade de maior desenvolvimento em todo os âmbitos de sua vida está comprometida” complementou.

Estaduais também sofrem

O diretor geral da Udesc em Ibirama, Jaison Ademir Sevegnani, lamentou o corte e destacou ainda que a atitude irá afetar os investimentos e a infraestrutura da instituição. “Na qualificação dos professores, nas oportunidades de melhorias em laboratórios, na abertura de novos cursos e na consolidação de novos cursos. Perde o ensino, a pesquisa e a extensão, de onde surgem as soluções para todos os problemas? Da Educação, ela é o pilar central. O MEC está ignorando a própria importância dele como agente propulsor ao desenvolvimento das pessoas e nação”, comentou.
Questionado sobre como avalia a realidade da Educação no Brasil ele diz que ela sempre viveu altos e baixos. “Não há um plano de desenvolvimento à longo prazo, acima do interesse político. Ela é poética quando fala se dela, mas apenas custo aos olhos dos governantes”ressaltou.

Para estudante, Brasil vive um retrocesso

Acadêmicos também se manifestaram contrários ao corte. A estudante do curso de engenharia ambiental da Udesc de Lages, Sheila Jordão de Souza, destacou ainda a relevância das universidades públicas como fonte de pesquisa do país. “É a partir delas que o conhecimento e a tecnologia são gerados e desta forma impactando positivamente em diversas áreas, como por exemplo meio ambiente e agricultura, medicina e saúde, física e ciência. Com o corte, essas áreas serão afetadas diretamente de forma negativa. O Brasil vive um retrocesso, no qual corta-se os investimentos em pesquisa e não privilégios políticos. E eu pergunto, será que eles sabem o que acontece dentro de uma universidade pública?”, ressaltou.
Ela lembrou também, que as universidades públicas possuem pesquisas de ponta com destaque internacional contribuindo para o desenvolvimento do Brasil. “As universidades públicas e os Institutos Federais em muitos casos, são as únicas oportunidades de um jovem ter acesso à um curso superior ou técnico, lembrando que mais da metade dos jovens brasileiros pertencem a classe D e E. Na universidade a gente gera um retorno à população por meio da pesquisa e de projetos sociais. As universidades mais produtivas e bem-conceituadas do país são públicas e gratuitas”, completou.

 

Tatiana Hoeltgebaum