Por: diario | 09/05/2013

Apaixonado por literatura e por jornalismo, Gabriel Gómez comanda há mais de 20 anos o jornal semanal A Cidade, de Rio do Sul, no qual também tem uma coluna. Como escritor acumula cinco livros em seu currículo. Conheça um pouco mais sobre a personalidade desta semana, um argentino que escolheu o Brasil para viver.

Diário do Alto Vale – Neste fim de semana sai a milésima edição do A Cidade. Qual o valor desse marco?
Gabriel Gómez – Isso me remete a todos os erros, acertos, processos e idealismo. Me faz lembrar que eu vim de um regime ditatorial da Argentina [Buenos Aires] onde os jornais e meios de comunicação eram censurados e os livros queimados. Aqui, através do A Cidade eu contribui para levar mais informação ao cidadão, já que eu sempre considerei que é a partir dos livros e do jornalismo que o cidadão se fortalece. Se o munícipe fica a beira da notícia, dos acontecimentos, não tem como participar, e desta forma fica também mais maleável.
Vejo que valeu a pena, porque somos consequência do pioneirismo do jornalismo na região, quando começamos há 23 anos, só existia o Nova Era e nós viemos para querer opinar, compartilhar informações e fazer parte dela.

DAV – Como ocorreu a sua vinculação ao jornal?
Gabriel – Eu estava na minha livraria quando o ex-proprietário do A Cidade entrou e me convidou para ser colunista, escrever sobre cultura. Como a literatura era minha paixão, eu aceitei de imediato. Assim começou a minha relação com o jornalismo: dos livros para o jornalismo, que depois me devolveu aos livros. Alguns meses depois veio a proposta de compra do jornal, e por eu já estar apaixonado pelo que eu fazia, aceitei o desafio, e hoje estamos finalizando a milésima edição.

DAV – Qual o diferencial do A Cidade que se mantém a 23 anos em circulação?
Gabriel – A teimosia! A teimosia por querer fazer o que gosta, isso é uma luta diária, se não existe amor você não faz. É preciso acreditar no que você faz e se propõe a fazer, nenhuma batalha vale a pena se não pensarmos assim. É isso que nos mantém vivo, essa vontade.

DAV – O A Cidade é bastante conhecido pela coluna do Gabriel, que expressa opinião clara sobre fatos diversos, como isso repercute?
Gabriel – O que eu não gosto do jornalismo é a política, isso me desgasta muito. Eu já tive muitos problemas por emitir a minha opinião. Na política a versão dada nunca será a última ou a única, os inimigos de hoje, amanhã estão se abraçando. E tudo isso é complicado, não é parâmetro para a vida real. Como jornalista você vê conchavos, acertos, bastidores, mas chega um momento que você diz: basta! Até onde eu posso me contaminar? O que faz mesmo parte da política? Porque somos sim políticos, alguns da boa vizinhança outros partidários.

DAV – Foi a experiência no jornalismo que te levou a escrever livros?
Gabriel – O escritor argentino, Jorge Luis Borges, diz ‘que outros se orgulham daquilo que escreveram, eu me orgulho pelo que eu li’. Então eu acho que a escrita é uma consequência de tanta leitura. De tanto você colocar para dentro, tem algum momento que isso precisa sair por algum lugar. Eu sempre escrevi, mas nunca tive coragem de publicar, e o jornalismo me deu essa coragem. O jornalismo é o exercício de você conseguir ser claro, com pouco.

DAV – Quando e como surgiu o primeiro livro?
Gabriel – Lancei o “A Culpa é do Livro” logo que parei com o blog Mosca na Sopa [durou mais de dois anos], que fazia em parceria com o Aldo Siebert. Eu gostava do blog, mas me desgastava muito, quando decidi parar veio o tempo para me dedicar ao livro, e em 2008 saiu o primeiro.

DAV – Em quanto tempo você escreveu “A Culpa é do Livro”?
Gabriel – A vida toda! O primeiro livro acho que você escreve a vida toda, o segundo já tem um tempo. Você continuar escrevendo é você continuar a se escrever, mas abordando outras coisas. Eu não acho muito certo aquele pensamento filosófico que diz: “Conhece-te a ti mesmo”, porque acredito que muitos se apoiam nisso. Ah, eu sou assim, você sabe disso; ah eu me conheço… isso favorece as desculpas, você só conhece o que lhe convém. Então, desconhece-te a ti mesmo para poder abordar novos limites e alcançar novos campos. Desta forma nasceram os outros livros, uma evolução, aperfeiçoamento constante como escritor. É neste momento que muitos escritores se arrependem do primeiro livro, dizendo que nunca escreveriam daquele jeito. Vivemos em plena evolução, e a primeira obra precisa existir para haver outras.

Texto e fotos: Aline Kummrow