Por: diario | 24/04/2019

As temperaturas mais baixas já começaram a aparecer na região Sul de Santa Catarina e consequentemente a procura pelo pinhão, produto típico do inverno começa a aumentar. Não somente assado ou cozido, a semente é utilizada para realizar diversas receitas. Mas neste ano, os apreciadores precisarão pesquisar valores, já que a safra deve ser 70% menor do que ano passado. Os dados são da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) de Painel, cidade onde a produção é a maior.

No Alto Vale a notícia é dada com muita tristeza, já que na região a venda movimenta a economia. De acordo com a engenheira agrônoma do município de Lontras, Daniele Girardi Heck, um dos fatores que mais impactou para a baixa na produção, foram as condições climáticas desfavoráveis do ano passado.

“Está havendo pouca produção e com isso a forte queda na produção é visível, uma das possíveis causas é a falta da polinização que ocorreu, por conta da grande quantidade de chuva nesse período e também falta de vento, fator que a araucária necessita para obter boa produção. A polinização ocorre entre agosto e outubro, nesse período a chuva foi frequente”, enfatiza.

A cidade que mais produz

Localizada na Serra Catarinense, uma das cidades que mais produz é o município de Painel que hoje é referência quando se fala em produção dessa semente. “No município de Painel na região de Lages, por exemplo os agricultores estão reclamando que é significativo a diminuição na produção da semente e que impacta diretamente na economia e planejamento financeiro”, diz Daniele.

Outro engenheiro agrônomo, que atua na cidade de Painel pela Epagri, Cesar Alessandro Oliveira de Arruda, destacou também que em uma floresta fechada como a mata Atlântida, existe uma população muito elevada e a planta não tem espaço para produzir. “A planta só cresce, e não produz galhos fortes para a produção da semente, ela só tem tamanho. Quando você tem manejo sustentável, e floresta onde você planta, conduz e maneja com certeza a quantidade seria muito maior”, pontua.

Falta de incentivo

Um dos dificultadores para Cesar, que conhece e vive essa realidade no dia a dia, é a falta de incentivo e a lei que não permite o corte nem o manejo da planta. “Esse é o maior erro da lei, nunca ter incentivado o plantio da araucária, se extinguiu ela no momento em que se fez uma lei que proíbe o corte”, explica.

O engenheiro comenta ainda, que quando se trata de assistência técnica para a planta não há muito o que ser feito, por conta da lei. “Outros profissionais concordam comigo nesse aspecto, porque o meu trabalho como agrônomo e de outros colegas nesse sentido, seria mais eficiente dentro de uma propriedade se a gente tivesse a liberdade de dizer vamos plantar assim, vamos conduzir essa floresta desse modo, hoje isso não pode ser feito e não existe esse incentivo. Não temos potencial e não geramos renda para o produtor, ele poderia ter renda com a madeira e com o pinhão de forma sustentável, mas infelizmente a lei não permite cultivar essa tradição”, esclarece.

Safra negativa

A safra ainda está em fase de colheita, porém, de acordo com o engenheiro agrônomo, a queda já é visível. “Esse ano e o próximo serão anos de pouco pinhão pela falta de polinização, principalmente porque é uma planta que depende do vento para se reproduzir. A falta do vento é também algo que atrapalhar. Para nós vai quebrar próximo de 70% a safra, então isso é o que a gente estima pois estamos só na metade da safra, não posso afirmar ainda”.

Outro ponto que o engenheiro pontua, é a falta de araucárias. “Ainda que sendo a maior região, temos poucas araucárias e consequentemente pouca produção. Nessa safra eu cheguei na casa de alguns produtores e disse: vamos tirar um pinheiro hoje? Então nós tiramos e eu perguntei geralmente vocês tiram quantas pinhas desse pinheiro? Aí eles me relatam a quantia, e eu digo para nós tirarmos todas as pinhas para se basear de quanto será a queda”, finaliza.

Preço

Um dos produtores da cidade, Gabriel Muniz de Oliveira, que é morador do município de Painel há 23 anos, destaca que já é possível observar uma queda brusca em relação aos anos anteriores. “Estamos chegando em torno de 50% da safra 2019 e já vemos que a queda é de 60 a 70% da produtividade em relação ao ano de 2018. Essa queda faz com que o produtor tenha mais trabalho no extrativismo do pinhão, porém os preços se mantém em um nível elevado com relação ao ano passado. Tivemos no ano anterior uma média de R$ 2,50 a R$ 4,00 o quilo e esse ano está se mantendo de R$ 4,00 a R$ 6,00. Esse ano para o produtor alcançar a média ele terá mais dificuldade na hora da colheita, isso é o que eu observo”, relata o produtor.

Para reverter a situação

A engenheira Danieleexplica que o espaçamento entre as plantas é um grande vilão quando não feito corretamente. “A araucária é uma planta que apresenta estruturas reprodutoras separadas, com árvores masculinas e femininas e essas árvores precisam estar perto para que ocorra fecundação ocorra. Quando as plantas estão distantes elas são polinizadas pelos insetos”,.

Ela comenta ainda que outra dificuldade é que a araucária é uma planta que demora para se desenvolver. “A produção inicial é pequena, mas depois de dois ou três anos ela produz em abundância e depois diminui novamente, é o que chamamos de alternância de carga, esse fator também aconteceu nessa queda de produção, então é mais um motivo. Nós tivemos esses dois fatores e eles influenciaram muito, tanto as condições climáticas desfavoráveis como a questão dos fatores cíclicos, onde em um ano produz em grande escala e no outro a diminuição impacta”.

Para que a produção deixe os agricultores mais empolgados para as próximas safras, ela lembra que apesar de não podermos controlar a o tempo, o ideal é principalmente cuidar com o espaçamento entre as plantas. “A principal recomendação para atingir uma boa produção é utilizar o espaçamento de plantio de 10 em 10 metros e manter o maior número de ramos nas árvores para que consequentemente atinja o maior número de pinhas nas plantas, o plantio deve ser feito em solos profundos e de boa fertilidade, isso também influencia para obterem bons resultados”, finaliza.

Tatiana Hoeltgebaum