Por: diario | 05/02/2018

Até 20% de debates em apoio a políticos no Twitter são motivados por contas automatizadas. O dado é resultado de um levantamento feio pela Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (FGV/DAPP), a partir de estudo sobre perfis automatizados – os chamados robôs –, redes sociais e política. Tais tentativas de manipulação da opinião pública impõem riscos à democracia e ao processo eleitoral deste ano, apontam pesquisadores. O fenômeno motivou a Justiça Eleitoral a formar um grupo de trabalho para conter a disseminação de informações falsas na rede.

O levantamento da DAPP fez o estudo de seis acontecimentos políticos de alta repercussão nas redes: dois debates da Rede Globo entre presidenciáveis na eleição de 2014 e um debate com candidatos a prefeito de São Paulo em 2016; manifestações pró-impeachment, também em 2016; a greve geral em abril de 2017; e a votação da Reforma Trabalhista no Senado, em julho do ano passado.

No estudo, os pesquisadores apontaram o aumento dos casos de perfis automatizados para uso mal-intencionado, como o de influenciar o debate político.

Os robôs utilizados em redes sociais, que foram alvo do estudo da DAPP, se tratam de contas gerenciadas por software que criam conteúdo de forma artificial e ainda são capazes de interagir com contas de usuários reais. Segundo os pesquisadores, esses robôs procuram simular o comportamento humano e se passam por pessoas, interferindo em debates espontâneos que surgem nas redes ou forjando discussões.

Essas manipulações feitas por contas automatizadas acabam dando a falsa sensação de que determinada proposta, ideia ou figura pública possuem grande apoio político entre a população, observam os pesquisadores. Os robôs ainda teriam, conforme o estudo, a capacidade de alterar o rumo de políticas públicas e até mesmo interferir no mercado de ações. Nos casos analisados, os pesquisadores conseguiram identificar que na greve geral de abril do ano passado – contra as reformas da previdência e trabalhista propostas pelo governo – mais de 20% das interações feitas no Twitter entre os usuários favoráveis à paralisação foram provocadas por contas automatizadas. Já no debate em segundo turno das eleições de 2014, também quase 20% das interações entre os usuários a favor de Aécio Neves foram motivados por robôs.

É TUDO FAKE 

Não bastasse a criação de um cenário artificial e irreal, tais contas costumam ainda difundir as chamadas fake news e outros conteúdos com grande apelo, incluindo até mesmo teorias conspiratórias. O resultado é a geração de desinformação e poluição de conteúdo, criando um ambiente em que que as notícias reais acabam sufocadas por conteúdo duvidoso.

De acordo com a pesquisa da DAPP, os robôs frequentemente usam as redes sociais para a reprodução de notícias falsas com o propósito de influenciar certa opinião a respeito de uma pessoa ou de um tema relevantes, assim como buscam poluir o debate com informações reais, mas que são irrelevantes para determinada discussão.

“Esta ação, que conta com o compartilhamento de links como principal mecanismo de propagação, tenta evitar ou diminuir o peso do debate sobre determinado assunto. Para isso, os robôs geram um número enorme de informações, que chegam até os usuários simultaneamente às informações reais e relevantes, que acabam tendo seu impacto diminuído”, diz o estudo. Dessa forma, os robôs não apenas replicam fake news, cujos efeitos podem ser nocivos para a sociedade, como também acabam impedindo que o usuário se informe da maneira adequada.

MAIS DO QUE ROBÔS 

Uma investigação feita pela BBC Brasil, publicada em dezembro do ano passado, identificou a presença de perfis falsos nas redes sociais, porém, criados e geridos por pessoas reais. As evidências encontradas a partir da investigação indicam que uma empresa com base no Rio de Janeiro teria utilizado um “exército virtual” de perfis falsos para manipular a opinião pública, sobretudo no contexto das eleições de 2014.

Quatro pessoas que afirmam ser ex-funcionários da empresa foram entrevistadas e revelaram que recebiam dinheiro para gerenciar os perfis fakes. Uma das fontes diz que recebia R$ 1,2 mil por mês para cuidar de vinte perfis no Facebook e Twitter. A investigação apurou a atividade online de mais de 100 supostos perfis falsos e identificou que 13 políticos teriam se beneficiado da atividade, no entanto, sem evidências de que soubessem do uso dos fakes.

Com a ajuda de especialistas, informa a BBC Brasil, foi possível identificar como os perfis falsos estavam interligados e também seus padrões típicos de comportamento, indicando que se tratavam de ciborgues. De acordo com os pesquisadores da DAPP, essas contas são parcialmente automatizadas, sendo também manipuladas por pessoas que postam conteúdo real para dar um aspecto de aleatoriedade, comum às interações humanas.

JUSTIÇA ELEITORAL ATUA PARA SE ANTECIPAR ÀS FAKE NEWS 

Em sessão extraordinária em dezembro do ano passado, quando o Plenário do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aprovou dez resoluções sobre as regras das Eleições Gerais de 2018, o presidente do TSE, ministro Gilmar Mendes, assim como o ministro Luiz Fux – que assume a presidência da Corte na próxima terça-feira (6) –, ressaltaram a necessidade de a Justiça Eleitoral prevenir e punir as fake news no pleito deste ano.

Segundo o ministro Fux, a preocupação do Tribunal será atuar preventivamente contra as notícias falsas e instrumentos similares. “Tão logo saibamos que há empresas já preparando essas estratégias nocivas, vamos atuar através de medidas cautelares cabíveis e encartadas no nosso poder de polícia”, assinalou na ocasião.

A partir de uma determinação de Fux, o TSE manterá um grupo de trabalho com a participação de integrantes da Polícia Federal e do Ministério Público Federal. O objetivo do grupo será a elaboração e um projeto de lei específico sobre o assunto e também de um protocolo de atuação dos órgãos componentes do grupo para as eleições.

Ainda no TSE, o presidente Gilmar Mendes instituiu – em dezembro – a criação de um Conselho Consultivo sobre Internet e Eleições, com foco principalmente em robôs e fake news. O colegiado é composto por representantes da Justiça Eleitoral, governo federal, Exército e também da sociedade civil. Conforme o secretário-geral do Tribunal, Luciano Fuck, o foco do Conselho Consultivo não está na punição, mas na prevenção do que pode ser feito para coibir a utilização das notícias falsas durante as eleições.

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Via: OCP ONLINE