Por: diario | 23/04/2019

A peste suína na China, tem sido pauta de economistas, empresários e produtores do Brasil. O país, que tem o maior rebanho de porcos do mundo, deve sacrificar 20% para combater a doença, o que pode ajudar o Brasil e principalmente Santa Catarina na exportação de carnes. Porém, se para a pecuária ela pode alavancar os negócios, por outro lado, pode prejudicar o setor de soja, já que a exportação do grão do Brasil para outros países bem como o preço,devem cair.

A perspectiva é de que os chineses reduzam em no mínimo 10% a compra de farelo de soja neste ano, o que aumentaria os estoques mundiais, que já são os mais altos dos últimos três anos. Ao mesmo tempo, há ainda a possibilidade disso não acontecer, já que como aumentará a exportação de suínos, automaticamente vai aumentar a produção, o que pode estimular a procura pelo ingrediente de ração animal.

Para o gerente comercial de produtos da Cooperativa Regional Agropecuária Vale do Itajaí (Cravil), Marcelino de Abreu, o abate de animais pode refletir de forma negativa no setor de soja da região. “Isso impacta porque isso é ligado com os preços da bolsa de Chicago, que move o mercado no mundo inteiro. Por exemplo, o dólar impacta no preço da nossa soja e tem algumas outras variáveis também, só que com a peste suína se agravando lá na China, eles estão abatendo o plantel, o que vai gerar menos consumo de ração, ou seja eles vão importar menos soja porque eles vão precisar de menos farelo. Vai ter menos demanda com a soja e com certeza as grandes players, que compram a soja aqui e vendem lá, terão menos mercado para vender e o preço com certeza vai cair, assim como já caiu bastante com a bolsa de Chicago”.

Ainda sobre o preço, ele explicou que são vários os fatores que evidenciam a baixa ou alta. “Na soja tem alguns fatores que têm pressionado o preço hoje, como atraso no plantio da safra de milho dos Estados Unidos, com tendência em aumentar ao produção da soja, bem como estoques altos naquele país, já que devido à briga com os chineses o Brasil era quem mais exportava, a peste suína também vai impactar no preço, então a formação do preço da nossa soja é uma união do dólar, bolsa e outras variáveis”.

Sobre a porcentagem ou a estimativa de quanto isso pode afetar a comercialização do grão no Brasil e na região, Abreu disse que ninguém tem como precisar. “Quanto vai afetar não tem como prever, nenhum analista pode saber, o que a gente faz a leitura é do mercado agora que é um fator negativo, de baixa. As opiniões contidas dos analistas são meras avaliações de mercado, estimativas do estado que está, mas não quer dizer que isso será uma realidade, que realmente vai acontecer. Esta peste suína vai atrapalhar? Vai. Quanto? Às vezes pode ser 1% que não muda muito, mas pode ser 10 ou 15%, aí já impacta bastante”.

No Alto Vale, um dos municípios que está tendo destaque com a cultura da soja é Trombudo Central, onde de acordo com o secretário de Agricultura, Leirson Vicente, atualmente são produzidas cerca de 700 hectares. “A soja em Trombudo Central está entre os 10 produtos de maior expressão dentro do município, nós cultivamos em torno de 700 hectares, é uma cultura que está substituindo muito o milho e neste momento ela ainda é bem rentável para os produtores, pois chega a sobrar em média R$ 2.500 por hectare”.

E sobre diminuição na exportação do produto, o secretário afirma que acredita não ter problemas na produção da região nem mesmo em uma redução drástica no preço. “Eu acredito que com esta situação da China, com a tendência de diminuir um pouco a exportação, com certeza o preço vai cair, mas eu não vejo ainda um impacto muito grande neste momento na produção desta próxima safra. O que a gente vê é o pessoal desmanchando as pastagens, substituindo a cultura do milho, do feijão, tudo por soja”.

Quanto à suinocultura, Leirson destacou que é a principal movimentação econômica de Trombudo Central, chegando aos R$ 12 milhões por ano, e agora, com o aumento na exportação, a expectativa é de ampliar ainda mais o rendimento.

Exportação de carne já tem crescimento

O diretor do frigorífico Pamplona, Julio Cesar Franzoi, disse que não tem como precisar ainda os impactos que a peste pode causar, mas que já há uma melhora no mercado. “A gente ainda não sabe quanto é o impacto, ainda não temos números oficiais, mas já nota-se uma melhora significativa de demanda para aquele mercado. Para a suinocultura do Brasil, é um benefício, porque a China terá de comprar de alguém para substituir a quebra de produção”.

Ele disse ainda, que este será um fator positivo para a exportação e que o aumento já aconteceu no último mês. “São poucas as plantas que exportam para a China, nós estamos habilitados com duas plantas, então nos últimos 30 dias nós direcionamos para lá um aumento de 30 a 40% de volume. Com certeza será um fator positivo para a suinocultura do Brasil e também para a nossa empresa durante um período de cerca de um ano, porque a recomposição da suinocultura lá vai demorar um ano e meio, dois anos, então teremos uma boa oportunidade para aquele mercado”.

Santa Catarina, que é o maior produtor nacional de carne suína, também sentiu diferença no aumento de exportações em março. Como resultado, o estado exportou 29,7 mil toneladas de carne suína, com um aumento de 13,4% em relação ao mesmo período de 2018, sendo que 40% das exportações catarinenses do produto foram para abastecer o mercado chinês. No último mês, os chineses compraram 12 mil toneladas de carne suína, gerando receitas de mais de US$ 23,8 milhões – um aumento de, respectivamente, 23,6% e 21% em relação a março de 2018.

Portanto, a China segue como o maior comprador da carne suína produzida em Santa Catarina e a tendência é de que as compras aumentem ainda mais. “A suinocultura chinesa vem atravessando uma séria crise, decorrente da ocorrência de mais de uma centena de focos de peste suína africana. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) estima uma queda de 5% na produção chinesa de carne suína em 2019. Com isso, alguns analistas acreditam que o país pode dobrar o volume de carne suína importada”, explica o analista do Centro de Socioeconomia e Planejamento Agrícola (Epagri/Cepa), Alexandre Giehl.

Diferenciais da carne suína catarinense

A sanidade agropecuária é o grande diferencial de Santa Catarina, pois o estado se mantém como única zona livre de febre aftosa sem vacinação do Brasil, além de zona livre de peste suína clássica, reconhecido pela Organização Mundial de Saúde Animal.

Elisiane Maciel