Por: diario | 14/04/2018

Além de lembrar o passado e de valorizar a rica cultura dos povos que habitavam o Alto Vale, no Dia do Índio comemorado em 19 de abril, podemos destacar uma das figuras que protagonizou um feito que entrou para a história do país, promovendo a pacificação entre os Xokleng: Eduardo de Lima e Silva Hoerhann. A pacificação completa 104 anos em setembro deste ano.
Vindo para a região de Ibirama em meio aos muitos conflitos entre índios e colonizadores, muitos deles sangrentos, Eduardo de Lima, que era bisneto de Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias (herói da Guerra do Paraguai), em 1914 como funcionário do SPI, conseguiu, contatar os Xokleng às margens do córrego Plate e Rio Hercílio no dia 22 de setembro, sendo que a data do primeiro contato é lembrada como o Dia da Pacificação. Depois de ganhar a confiança dos nativos, Lima acabou convencendo os três grandes líderes indígenas da época de que a única maneira de sobreviver era na terra demarcada.

Bisneto e historiador

O bisneto do pacificador, o historiador Rafael Casanova de Lima e Silva Hoerhann, que atualmente mora em São José, descreve o ascendente como um aventureiro que saiu de casa aos 15 anos para ingressar no SPI, em busca de uma causa humanitária: salvar os indígenas dos malefícios da civilização. “Aos 18 conseguiu o primeiro contato pacífico com os Xokleng em 1914. Em poucos anos ele percebeu que tais malefícios eram justamente retirar o indígena de sua condição natural, mas não havia volta pelo fato que todo um trabalho de integração estava em andamento”, conta. Rafael escreveu em 2012 a tese “O serviço de proteção aos índios e a desintegração cultural dos Xokleng (1927-1954)”.
Entre as curiosidades da vida do bisavô, o historiador destaca que logo após o contato “pacífico” de 22 de setembro de 1914, os indígenas impuseram a Eduardo de Lima, o trabalho de cortes de árvores. “Eram árvores colossais, isso nas primeiras semanas após para provar a ele, que eram os verdadeiros senhores da região, tipo “nós mandamos aqui” ”, conta.

Aqui Jaz Katanghara

No Cemitério Municipal em Ibirama, uma lápide em forma de ponta de flecha e e a inscrição “Aqui Jaz Katanghara”, marca o lugar do sepulcro de Eduardo de Lima, falecido em 1976. O nome Katanghara junto ao epitáfio, foi dado pelos índios. “Katanghara é a madeira cabiúna (Dalbergia nigra) utilizada para a confecção dos arcos do povo Xokleng. Os índios lhe deram esta alcunha devido ao seu porte atlético na juventude e sua personalidade rígida”, conta Rafael. No túmulo há uma escultura indígena em argila, representando a árvore.
Segundo suas pesquisas, Eduardo de Lima nunca desarmou os indígenas, que continuavam suas incursões pelas matas em busca de caça. “Isso foi escrito por um antropólogo norte americano que esteve na região por quase dois anos”, acrescenta. O antropólogo Jules Henry defendia que indígenas levarem a vida tinham, preservando os costumes, o que acabou convencendo Eduardo, já que a intenção do SPI de promover o processo de nacionalização dos índios não estava acontecendo.
Segundo Rafael , o bisavô era visto como um homem culto. “Aprendeu muito sobre farmacologia com seu amigo Hugo Straube, formado em Dresden (falecido 1930), prestou muita assistência médica e farmacêutica, não só para os indígenas, mas também à comunidade local, que carecia de atendimento rápido. Não tenho intenção de torna-lo herói, apenas colocar o seu lugar na história de forma justa”.
Com a pacificação, os índios, que viviam da caça, foram confinados na reserva Duque de Caxias, que ocupa parte dos municípios de José Boiteux, Victor Meirelles, Itaiópolis, Doutor Pedrinho e Rio Negrinho. Apesar dos reflexos positivos do feito serem sentidos até hoje pelos povos indígenas, a reserva passou a viver um novo conflito com a construção da Barragem Norte. A reserva abriga as aldeias de Bugio, Barragem, Sede, Pavão, Palmeira, Figueira, Coqueiro e Toldo.

“Crime dos crimes”

Ao finalizar, Rafael forneceu de seus arquivos a última entrevista em vida de Eduardo de Lima, concedida ao Jornal O Estado em 20 de julho de 1973. Nela, o pacificador, depois de acusações que lhe fizeram – e que foi inocentado, se diz arrependido. Depois de deixar uma família de classe média do Rio do Janeiro para se dedicar por 42 anos aos índios no Sul do Brasil, ele passou por dificuldades no fim da vida, chegando a perder a aposentadoria. “Diante do horror com que essa experiência com os botocudos me armou, eu não voltaria a assumir a mesma tarefa que assumi no começo do século. Pacificar o índio, civilizar o índio é o crime dos crimes! Fui até amaldiçoado pela minha mãe por seguir minha missão”, disse na época. Botocudos eram como os Laklãnõ-Xokleng eram chamados no passado.

 

Marcelo Zemke