Por: diario | 13/02/2015

Natacha Santos

No início do século XX, Orson Welles provou ao mundo – sem querer – o poder das ondas de rádio. Ao reproduzir ao vivo a obra de ficção Guerra dos Mundos, obra de H.G Wells, que narra a invasão da Terra por marcianos, o radialista causou pânico em muitos ouvintes que, desavisados, acreditaram que aquilo estava mesmo acontecendo.

Hoje esse cenário é quase impossível diante de uma geração conectada pela internet, que não depende só de um meio para se informar. Mas na época a reação foi plausível para uma sociedade que tinha o rádio como principal fonte de informação.

Serginho Silva sabe que o rádio não é mais o mesmo da época em que começou na comunicação. O comunicador está há 26 anos trabalhando dentro de emissoras de rádio, o que lhe confere muita propriedade para falar sobre o assunto. Hoje a integração das mídias fez com que o rádio se transformasse, exigindo dos locutores muito mais repertório para convencer um público cada vez mais exigente.

Se por um lado o público se tornou mais exigente, por outro a tecnologia facilitou a vida dos comunicadores dentro do estúdio. Serginho lembra que quando começou na rádio 93 FM, trabalhava com dois toca-discos e só tocava vinil. Já os comerciais vinham em cartuchos, ou rolos de fita. “O aparelho que rodava os comerciais nós chamávamos de torradeira de pão, porque era o que parecia. Colocava o cartucho lá e depois, passado o comercial, tinha que botar tudo no ponto, porque sempre tinha uma sobra de fita e colocava de novo na ‘arvorezinha’, tinha que colocar pela ordem dos números”. Enquanto o comunicador se organizava com os comerciais, o disco continuava tocando e, quando a música acabava, já tinha que estar com outra pronta no ponto para tocar. “Só que ainda tinha dois telefones que ficavam tocando também. Então fazer rádio hoje e no tempo que nós começamos, há 26 anos, é muito diferente. Hoje temos tudo no computador, desde música, comercial, vinheta e a programação ainda vem pronta. Hoje é infinitamente mais fácil”.

Serginho conta que sempre foi um ouvinte fanático. Quando trabalhava com o pai em uma pedreira, sempre levava consigo um rádio para ouvir os programas da Ariane, Marlene, Edgar e Fofão. “Até que um dia me empolguei para vir perguntar como funcionava e se era possível fazer um teste. Fiz o teste e o fato é que desde essa primeira oportunidade, estou aqui até hoje”. Ele lembra que começou trabalhando à noite e primeiro apenas mixava as músicas. “Depois de certo tempo, o Ronaldo Gonçalves, que era o diretor na época, decidiu me dar a oportunidade de, pelo menos, dar a hora. Foi a minha maior emoção, tocavam duas músicas e eu dizia a hora. Quase desmaiei na primeira vez, mas foi muito legal. Lá se vai um quarto de século mais uma beiradinha e eu continuo apaixonado como no primeiro dia”, declara.

Além da tecnologia, o gosto musical dos ouvintes também mudou com o passar dos tempos. O diretor de programação da rádio 93 FM, Charles Bogo, afirma que o gosto popular brasileiro é outro e que rotular por estilos musicais está um pouco fora de moda. “As pessoas ligam aqui e pedem um Michel Teló, aí o comunicador diz que naquele horário não tem como tocar e o cara pede um AC/Dc no lugar, está bem eclético. As pessoas não dão mais tanto valor para essa coisa do eu tenho um estilo musical”.

Hoje também existe um cuidado maior para colocar as músicas na programação, garante Bogo. “O que era música de jovem na década de 80 e 90? Eram letras revolucionárias, que falavam de governo, de protesto. Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho, Capital Inicial, as letras eram extremamente criativas e tinham um fundamento”. O programador diz ainda que o sucesso das músicas e artistas hoje é muito efêmero. “Uma música, na década de 80, era tão raro de conseguir que quando chegava, ficava tocando na programação da rádio por um ano e as pessoas gostavam. Hoje se tocar por um mês a mesma música já ligam pedindo se não tem a música nova do artista. As pessoas se tornaram mais exigentes com músicas novas e elas se tornaram descartáveis”.

Há 26 anos no ar, Serginho Silva continua apaixonado pela profissão

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