Por: diario | 06/02/2019

Durante a posse histórica para as mulheres de Santa Catarina, onde pela primeira vez a Assembleia Legislativa teve cinco representantes femininas, o principal assunto do fim de semana envolvendo as deputadas, foi a roupa usada por Ana Paula da Silva, a Paulinha (PDT), durante a cerimônia. A ex-prefeita de Bombinhas e 5ª parlamentar mais votada do Estado, virou alvo de críticas e até mesmo de ofensas devido ao decote escolhido para a sessão.

A deputada contou que essa foi uma situação absolutamente inesperada e que causou incômodo e constrangimento pelos comentários ofensivos recebidos.

“O que incomoda não é a divergência de opiniões, porque quem está na vida pública está preparado para ser avaliado e julgado, as pessoas fazem isso com a gente e isso é comum. Os comentários das pessoas que que acharam que minha roupa não estava apropriada, tudo bem, eu aceito, agora as ofensas é que não dá para tolerar e isso gerou uma repercussão totalmente desnecessária, por uma coisa que não tem nada a ver”.

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Ela disse ainda, que a participação feminina na política ainda é muito pequena e que neste caso, que era uma sessão solene, o tipo de roupa que ela estava vestindo é permitido.

“A presença da mulher é tão minúscula na política, que às vezes uma mulher que se veste como uma mulher num ambiente destes destoa. Era uma sessão solene, em sessões solenes é permitido que se use roupas deste tipo, mas nós somos em tão poucas, que a mulher acaba perdendo os seus direitos de se vestir e se acaba se preservando um pouco mais justamente para evitar estes comentários”.

A deputada ainda desabafou dizendo que já sofreu muito com violência psicológica, mas buscou o empoderamento pessoal para se aceitar como realmente é.

“Eu já sofri muitos processos de violência psicológica na minha vida no passado e depois que eu busquei essa questão de empoderamento pessoal, eu nunca mais me permiti sofrer essa auto violência, de me olhar no espelho com uma roupa, me achar bonita, querer sair com ela e voltar para trocar, porque talvez as pessoas fossem julgar inconveniente. Porque um homem nunca passou por isso e as mulheres também não devem passar, isso não é coerente com os novos tempos”.

Ela lamentou que por conta desse tipo de atitude, considerada por ela machista, Santa Catarina hoje, é um dos estados que tem maior índice de violência contra a mulher.

“Temos que se dar conta que nosso estado, para nossa tristeza, é o quarto do país que mais agride e maltrata suas mulheres, e se você perguntar para a maioria dessas pessoas que me acusaram nas redes sociais se elas são machistas, fora deste contexto, muito provável que elas dirão que não, mas o que foi patrocinado foram justamente atos coletivos de machismo, de preconceito”.

Paulinha revelou que foi um processo bastante dolorido, mas que os comentários de afeto foram maiores do que os que a acusavam.

“Eu recebi muito apoio de pessoas que me deixaram mais forte, mais segura, e convencida de que eu não tenho o que mudar porque eu sou uma deputada agora, eu tenho uma função de trabalho agora, mas eu não vou mudar tudo aquilo que eu sou e acredito por isso. Eu realmente fiquei muito entristecida de começar o meu trabalho na Assembleia deste jeito, mas quem me conhece sabe que eu sou exatamente assim. Enfim, não é um estilo de roupa que define uma mulher. Eu sou uma mulher, tem dias que a gente tem vontade de sair de pijama se fosse possível, tem dias que eu vou trabalhar de camiseta e calça jeans, sem batom e maquiagem, porque mulher é assim, tem dias que a gente não se sente assim com vontade de se arrumar. Mas tem dias que eu vou querer colocar uma roupa bonita e me sentir deslumbrante, isso tem a ver com a alma das mulheres. Eu tenho inúmeras amigas, e outras mulheres que eu não conheço, que me procuraram nos canais privados para contar essas histórias de situações semelhantes que viveram, seja no ambiente da família, ou quantas amigas que estão se arrumando para sair e aí chega o marido e diz assim “não, com essa roupa você não vai”, o tempo todo a gente escuta isso, o tempo todo temos que conviver com isso”.

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Ela finalizou dizendo que decidiu representar judicialmente os ofensores e a parlamentar pretende doar eventuais indenizações, a instituições de apoio para mulheres que sofrem agressão.

“As pessoas que promoveram atos de violência e de agressão, com certeza absoluta eu vou representar a gente vai judicializar e vai fazer com que elas paguem por isso, porque é crime xingar, ofender, promover injúria, calúnia contra as pessoas, até como resposta mesmo à esse cenário de violência que a gente não pode mais patrocinar. Foi um episódio lamentável, mas que nos mostra o quanto a gente ainda precisa evoluir, enquanto sociedade na questão de igualdade”.

Elisiane Maciel