Por: diario | 1 mês atrás

 

Na grande parte das periferias do Brasil, a musicalidade se fez presente. Junto às crenças e costumes, esses povos mantinham em sua essência o ritmo do samba. A extinta comunidade da Beira, em Rio do Sul, não poderia fugir dessa tendência natural e a batucada dos tambores também animou os foliões na época do Carnaval. Tudo começou com a chegada do artista de circo e músico, Eugênio Elias, mais conhecido como Cascas, por volta de 1950. Foi nessa época que nasceria na Beira, uma história com laços significativos para a cultura rio-sulense. Cascas foi o responsável pela criação da primeira escola de samba na capital do Alto Vale.

 

Os batuques da escola de samba em Rio do Sul iniciaram simultaneamente com os eventos no salão de festas de Miguel Marcelino Caetano em 1965, na comunidade da Beira. O salão de assoalho, servia como base da escola, e os bailes ocorriam semanalmente, “apenas com uma gaita, pandeiro e violão, nada ligado ao microfone”, conta José Miguel da Costa, neto do proprietário do salão. O Seu Miguel, como é conhecido pela maioria das pessoas, é remanescente da Beira e lembra muito bem do tempo de samba e carnaval.

 

Denominada “É com Essa que Eu Vou” a escola de samba divertia Rio do Sul na época da folia. O desfile começava e terminava no popular salão e os foliões se destinavam ao Centro da cidade, embalados pela batucada autêntica, percutida pelos integrantes da bateria. Uma curiosidade sobre o carnaval daquela época tem relação com o envolvimento da “elite” no desfile.

“O pessoal tinha vergonha de iniciar o desfile junto à Beira, por isso, combinavam conosco que, quando nós passássemos na frente do Concórdia, tradicional clube da elite rio-sulense, a turma estaria esperando, para seguirem junto a nós”, lembra Seu Miguel.

 

O preconceito para com os moradores da Beira era recorrente naquela época. No entanto, ao menos no período de carnaval, as diferenças ficavam de lado e todos comemoravam juntos.

“Depois do desfile nos reuníamos no bar da Ford e como forma de retribuir a participação no Carnaval da Beira, a moçada da ‘elite’ arcava com todas as despesas no bar”, lembra.

 

Se engana quem pensa que a algazarra terminava por aí.

“Após a reunião no bar da Ford, cada grupo tomava seu rumo. O pessoal da Beira seguia para o salão de festas, e a classe alta se dirigia para o Clube Concórdia”, conclui.

 

José Miguel da Costa – Remanescente da Beira

 

Na véspera do desfile, Cascas e sua turma passava pelo comércio da cidade, com a intenção de arrecadar tecidos ou enfeites para a confecção das fantasias que, no dia do desfile, eram usadas pelas passistas da Beira. A festa movimentava toda Rio do Sul, como o ritmo pulsante do samba, até os descendentes de alemães, ou italianos, que foram em grande parte, colonizadores desta região e conhecidos pelo semblante mais sisudo, se abriam para as graças do Carnaval.

 

Grupo musical Sambeira

 

Na folha amarelada do Diário Oficial do Estado, de setembro de 1987, uma frase, escrita a caneta no canto superior, chama a atenção: “Miguel cheguei até a chorar de satisfação e de ver o reconhecimento deste valoroso grupo. Um abraço Nodgi”. As letras foram rabiscadas pelo deputado estadual Nodgi Pellizzeti que reconheceu a criação do Grupo Sambeira Regional Cultural e Educacional Do Alto Vale Do Itajaí.

 

O Sambeira foi um grupo de samba formado e registrado por remanescentes da Beira. A história tem raízes na “É Com Essa que eu Vou”, afinal, todos os membros desfilaram na escola de samba da Beira. Em 1987 o estatuto do grupo foi criado, quando a Beira estava praticamente extinta. Os ensaios ocorriam em uma sala disponibilizada pela prefeitura.

 

Um dos integrantes, José Miguél da Costa, o seu Miguél, conta que o Sambeira tinha como objetivo promover entre os associados a prática de lazer, música popular brasileira, animar festividades e promover a cultura através da música.

“É exatamente o que consta no documento ainda guardado como motivo de orgulho em uma pasta, junto com o recibo de 3 mil cruzados, referente a apresentação do grupo na convenção nacional da Câmara Junior”, lembra Miguel.

 

Os integrantes que compunham a diretoria eram os mesmos que garantiam a batucada. A harmonia do grupo ficava por conta do presidente, José Miguel da Costa (violão), e do vice Nilson Nunes (cavaquinho). A “cozinha” do Sambeira era assegurada pelo secretário Aldo Alexandre da Cruz, popular Dinho do pandeiro, e a marcação do tantã firmada pelo tesoureiro Narciso da Cruz.

 

O grupo realizou algumas apresentações em clubes e casas de show na região. A ideia de seguir carreira foi descartada pelos compromissos pessoais de cada integrante e, logo após alguns anos, o Sambeira encerrou as atividades. Não há dúvidas que esse grupo formado por ex-moradores da Beira, durante o tempo de atividade, representou muito bem a cultura e a identidade de um povo que sentia necessidade de alegrar o município com o ritmo que é patrimônio nacional, o samba!

 

Jorge Matias