Por: diario | 20/09/2019

Um levantamento divulgado nesta quarta-feira (18) pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostra que, embora o desemprego tenha caído e a massa salarial aumentado, o avanço da informalidade no mercado de trabalho fez crescer a desigualdade de renda no país nos últimos anos.
De acordo com o Ipea, o índice de Gini da renda domiciliar do trabalho subiu de 0,514 no 4º trimestre de 2014 para 0,532 no 2º trimestre de 2019. Já para a renda individual do trabalho, o indicador saltou de 0,495 para 0,508 no mesmo período.

O Índice de Gini é um indicador que monitora a desigualdade de renda em uma escala de 0 a 1 –quanto mais próximo de 1, maior é a desigualdade.
O instituto mostrou que, no 1º trimestre de 2019, a renda domiciliar do trabalho da faixa de renda alta era 30,1 vezes maior que a da faixa de renda muito baixa. No 2º trimestre, essa diferença aumentou para 30,5 vezes, “praticamente igualando o pico da série histórica (30,6) atingido no terceiro trimestre de 2018”.

Ao comparar o rendimento médio por faixas de renda no 2º trimestre de 2019 com o mesmo período do ano anterior, o Ipea apontou que as duas faixas de renda mais baixas foram as únicas a apresentar queda, de -1,4%. Em contrapartida, o seguimento mais rico da população registrou, no mesmo período, uma alta de rendimento de 1,5%.

A pesquisa considerou os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho.

Informalidade puxa queda do rendimento real

O Ipea enfatizou que os rendimentos reais médios apresentaram uma queda de 0,2% no segundo trimestre de 2019 em comparação com o mesmo trimestre de 2018, e uma queda de 1,3% em relação ao trimestre anterior.

Essa queda está relacionada ao avanço da informalidade que, embora tenha forçado a queda do desemprego e aumentado a massa salarial do país – soma de todos os rendimentos pagos a todos os trabalhadores – tem salários mais baixos. Além disso, mesmo na geração de vagas formais, os salários oferecidos são menores.
Segundo o Ipea, a grande maioria das vagas geradas no país no último ano possui remuneração máxima de dois salários mínimos. Além disso, somente as duas primeiras faixas salariais tiveram saldos positivos, ou seja, o número de contratações superou o de demissões.

O Ipea enfatizou ainda que, ao longo dos últimos 12 meses, os quatro maiores setores empregadores do país – indústria de transformação, construção civil, comércio e serviços – registraram “uma destruição de vagas com salário superior” diante da criação maior de vagas com remuneração entre um e dois salários mínimos.

Brasil só gera novas vagas de até dois salários mínimos

O levantamento do Ipea evidenciou que a geração de empregos ao longo de 2019 contempla remuneração de até dois salários mínimos. Acima de três salários mínimos não há saldo positivo.

“O mercado até contratou com salários acima de três mínimos, mas demitiu mais trabalhadores nesta faixa de remuneração do que contratou, então o saldo líquido é negativo”, disse a técnica da diretoria de Macroeconomia do Ipea, Maria Andreia Parente.
A pesquisadora ponderou que, historicamente, o maior volume de contratações sempre se deu entre as faixas mais baixas de remuneração.
“Mas a gente observa que, em 2010, o saldo de contratações na faixa de dois salários mínimos superava em mais que o dobro as da faixa de um salário mínimo. A distância entre eles agora é muito curta”, ressaltou.

Maria Andreia enfatizou, ainda, que o maior volume de contratações acontece em segmentos que habitualmente oferecem remunerações mais baixas e empresas de pequeno porte.

“Os grandes geradores de emprego no país são pequenas empresas, que realmente tem uma folha salarial mais baixa. Além disso, comércio e serviço, que mais contratam, são tradicionalmente os que pagam os menores salários”, reforçou.