Por: diario | 12/07/2018

Tarifas americanas sobre US$ 34 bilhões em produtos chineses entraram em vigor na sexta-feira (6), sinalizando o início de uma guerra comercial entre as duas maiores economias do mundo. A tarifa de 25% aplicada pelos Estados Unidos provocou retaliação imediata da China.

O país asiático impôs uma sobretaxa idêntica sobre 545 produtos americanos, que também somam um total de US$ 34 bilhões. Foram afetados pela medida alguns dos principais produtos de exportação americanos, como soja, carne de porco, frutos do mar e veículos elétricos.

Outra bateria de tarifas chinesas, ainda sem data para vigorar, vai atingir mais US$ 16 bilhões em produtos americanos, dessa vez afetando exportações de petróleo bruto, gás natural e alguns refinados de petróleo. As hostilidades no plano comercial entre as duas potências afetam outros países, como o Brasil.

No atual contexto de economias integradas em um sistema de comércio multilateral, mudanças nos preços, reduções ou aumentos de produção, fechamentos ou deslocamento de fábricas ou ainda a pressão para redirecionar produtos para outros destinos geram impactos diretos nos parceiros econômicos da China e do Estados Unidos.

 

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Relação com o Brasil

Embora o Brasil tenha um superávit comercial com a China, principal parceira econômica do país, o comércio exterior reproduz uma dinâmica histórica: o Brasil exporta commodities e importa manufaturados.

Os chineses compram produtos como minério de ferro, açúcar, celulose, carne bovina e de frango. Mas a soja é a principal mercadoria brasileira vendida para a China: representa 43% das exportações do último ano. As exportações de soja do Brasil para o mercado chinês representaram, em 2017, mais de US$ 20 bilhões, de acordo com o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC).

Já os EUA importam sobretudo aviões, semimanufaturados de aço e alumínio e petróleo bruto do Brasil. As exportações brasileiras para os americanos movimentaram US$ 26 bilhões no ano passado, segundo dados do MDIC. O valor equivale a um pouco mais da metade do que é gerado pelas exportações nacionais que seguem para a China.

“O ponto negativo é que essas tensões podem desacelerar o crescimento global, o que poderia prejudicar os mercados emergentes, tanto em termos de exportações, quanto em relação ao crescimento do investimento estrangeiro”, alerta Penelope Prime, diretora do Centro de Pesquisa da China na Universidade do Estado da Georgia (EUA).

O que diz o Governo

O ministro brasileiro da Agricultura e um dos maiores produtores de soja do Brasil, Blairo Maggi, disse em entrevista à agência Reuters em Paris que teme que a maior demanda externa por soja nacional vá pressionar os preços locais e prejudicar a competitividade do Brasil. A dinâmica pode se reproduzir com outras commodities que o Brasil exporta para China.

Segundo Maggi, o país ganha no curto prazo, mas no médio e no longo prazo, a forte demanda da exportação pode ser um problema, já que o Brasil é um grande produtor de animais e o setor depende da soja nacional para ração.

A soja é o principal produto agrícola que os EUA mandam para a China e corresponde a quase 10% das exportações do país. Com Pequim boicotando parte da soja americana, o agronegócio no Brasil teve lucro alto na safra passada.

No último ano, a China importou, ao todo, 97 milhões de toneladas de soja, o equivalente a quase o total do consumo da produção brasileira, 119 milhões de toneladas, segundo a Embrapa, e da americana, que soma 119,5 milhões de toneladas. Os chineses são os maiores importadores do produto no mundo.

Há uma década, 38% da soja que entrava no mercado chinês vinha dos EUA e 34%, do Brasil. Hoje, 57% da soja que abastece o país asiático vem de lavouras nacionais, segundo dados da Administração Geral da Alfândega da China.