Por: diario | 07/06/2019

O Grupo Semente de Paz, do Alcoólicos Anônimos (AA) de Rio do Sul, vai completar 34 anos na segunda-feira (10) e no mesmo dia, o AA completa 84 anos no mundo. Neste período de caminhada, milhares de pessoas e famílias tiveram apoio do grupo para enfrentar os problemas com alcoolismo e drogas.

Considerado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma doença, o alcoolismo é um dos principais problemas de saúde pública no Brasil. No último levantamento relacionado ao ano de 2016, o álcool esteve associado a 69,5% e 42,6% dos índices de cirrose hepática, a 36,7% e 23% dos acidentes de trânsito e a 8,7% e 2,2% dos índices de câncer, entre homens e mulheres.
Para ajudar essas pessoas a saírem do alcoolismo e amparar as famílias, foram criados os grupos de Alcoólicos Anônimos. De acordo com os integrantes do Grupo Semente de Paz, o fortalecimento mútuo a partir de grupos de apoio é o tratamentos mais eficaz contra a doença, que não tem cura. Nos encontros realizados pelo grupo, os integrantes podem compartilhar os problemas e buscar na “irmandade” o amparo e ajuda para resolver o problema.

O jovem de 34 anos, que frequenta o grupo há sete, diz que o grupo foi essencial para que houvesse um propósito em sua vida. “Para mim o AA é tudo na minha vida, porque temos um programa maravilhoso. Quem me trouxe para o Alcoólicos Anônimos foi minha falecida esposa há sete anos. Eu era uma pessoa que vivia na rua, já tive percas como carros, empregos bons, família, filho, troquei tudo pelo alcoolismo. Mas essa segunda esposa que me acolheu, me mostrou o grupo e eu vim”.

Ele contou ainda que durante todas as reuniões ela o acompanhou, fazendo parte do Grupo Familiar Al-Anon, mas que durante a trajetória, ela descobriu um câncer que lhe custou a vida. Motivo este, que o faz continuar todos dias. “Ela sempre me acompanhou e depois de cinco anos de luta comigo ela descobriu o câncer e eu então devolvi o que ela me ajudou. Ela fez mais de um ano de tratamento e há três meses ela faleceu. Eu não pude ajudar ela como ela me ajudou, mas hoje para eu me manter sóbrio basta frequentar a reunião e evitar o primeiro gole e estar com meus iguais. Hoje ela me deixou um filho e eu devo essa sobriedade à ela, seria injusto com ela eu voltar a beber”.

Um integrante, que está há mais de 30 anos no grupo, disse que o período dentro da irmandade, o ajudou a evoluir como ser humano. “Eu vim para cá desacreditado, a vida no alcoolismo é muito ruim e a partir do momento que eu entrei neste grupo a minha vida mudou muito, principalmente no tocante a família, porque queira ou não é a que mais sofre. E eu fiz a minha família sofrer muito, mas, dentro do AA eu aprendi muito. Para mim foi como uma escola, aprendi principalmente a respeitar os outros e a própria vida. Durante a passagem destes 30 anos a gente cresce e ajuda aqueles que chegam para ter mais um companheiro na sala porque a gente sabe que a vida do alcoolismo lá fora é difícil. Eu não era nada e vim aprender e ganhei tudo, saúde, família, nova vida. Minha segunda família é aqui dentro”.

Já outro integrante, que também está praticamente desde a fundação no Grupo, alertou sobre o trabalho diário para não voltar a beber, já que o alcoolismo não tem cura. “Estamos há 32 anos na luta, a doença do alcoolismo não tem cura e a gente tem que evitar o primeiro gole, fazer o propósito todo dia de manhã, porque indiferente do tempo que você está no AA, a possibilidade de cair na tentação é a mesma, é só ser fraco e pegar o copo e tomar. Já teve casos de recaída com gente há mais de 25 anos. Se eu largar os meus amigos aqui de dentro eu vou me encontrar com os de bar lá de fora, que querem me ver bêbado, de volta ao vício”.

Foto: Elisiane Maciel

Mais sobre o grupo

O grupo Alcoólicos Anônimos é uma irmandade de homens e mulheres que compartilham as experiências, forças e esperanças, com o objetivo de resolver o problema comum e ajudar outros a se recuperarem do alcoolismo. O único requisito para se tornar membro é o desejo de parar de beber.
Um dos integrantes do Semente de Paz, explicou que hoje o AA está em 193 países, e que Santa Catarina está presente desde 1967. Em Rio do Sul foi fundado nos anos de 1980, em 30 de agosto o grupo Família Feliz e posteriormente, em 1985, o Semente de Paz.
“Alcoólicos Anônimos é uma irmandade de homens e mulheres, que compartilham as experiências para salvar vidas. Nós temos 36 princípios e 12 passos para a recuperação individual, 12 tradições para a manutenção do grupo, e 12 conceitos para os serviços mundiais. A nossa quinta tradição diz que cada grupo é animado em um único propósito, que é o de levar a mensagem para o alcoólico que ainda sofre na rua”.

 

Como ser membro do AA

Para ser membro de AA não há taxas ou mensalidades, já que o grupo se declara autossuficiente pois se mantém com as próprias contribuições. A maioria das pessoas vai acompanhada de algum familiar ou amigo e recebe total acolhimento do grupo. A irmandade baseia-se em um programa de abstinência total de qualquer tipo de bebida alcoólica, evitando-se o 1º gole a cada 24 horas.

 

Princípios do programa

Os princípios do programa são constituídos pelos 12 passos, que visam à recuperação pessoal; pelas 12 tradições, que asseguram a unidade da irmandade; e pelos 12 conceitos para serviços mundiais, que são um conjunto de preceitos inter-relacionados para ajudar a garantir que os elementos da estrutura de serviços do AA se mantenham.

Nas reuniões sempre se lembra aos convidados que as opiniões e interpretações que escutarem ali ficam ali. Todos os membros têm liberdade de interpretar o programa de recuperação segundo seu próprio parecer, mas ninguém pode falar pelo grupo ou pelos AA em sua totalidade. Os encontros são baseados nas experiências de cada um do grupo.

“A gente diz também que sozinho não conseguimos, muitos tentam, tentam e acabam recaindo. Eu também já passei por isso, mas estou de volta aqui e transmitindo a mensagem”, relata o alcoólatra em recuperação e para ele o que mais auxilia a sua recuperação é a frequência das reuniões.

“As nossas reuniões têm depoimentos pessoais, é a nossa partilha que nos ajuda, é a troca de experiência, falar aquilo que eu fui, aquilo que eu passei, o que eu sofri no passado e o que o AA está me proporcionando, que é uma nova vida”.

 

Grupos de AA na região

Em Rio do Sul são três grupos de AA ativos atualmente, com reuniões semanais. O Grupo Semente de Paz tem reuniões as terças e sextas-feiras, às 20h, próximo à Fundação Cultural, na Rua Vidal Ramos, nº 150. O grupo Família Feliz, se reúne anexo a Catedral São João Batista no Centro de Rio do Sul, às quartas-feiras, às 20h e aos sábados às 18h. O Grupo Coragem para Mudar tem reuniões as segundas e quintas-feiras, às 20h, no salão da Igreja São José Operário na rua XV de Novembro. No mesmo local um grupo de familiares de alcoólicos também se reúne no enfrentamento da doença na família, é o Grupo de Al-Anon, com reuniões às terças, às 20h.
Existem ainda grupos em Imbuia, Ituporanga, Braço do Trombudo, Taió, Ibirama e Rio do Oeste.

 

Grupo Familiar Al-Anon

Além dos Grupos de Alcoólicos Anônimos, existem os Grupos Familiares Al-Anon, destinados aos amigos e familiares das pessoas em tratamento. O Al-Anon, é um programa de Doze Passos onde os membros compartilham as experiências nas reuniões de grupo e buscam forças e esperança na tentativa de resolver seus problemas comuns. Eles acreditam que o alcoolismo é uma doença familiar e que mudanças de atitudes podem colaborar com a recuperação. Os princípios do Programa Al-Anon são os Doze Passos, as Doze Tradições e os Doze Conceitos.

A integrante, que acompanha o grupo há mais de 10 anos, explica o funcionamento dos encontros no grupo anexo ao Semente de Paz, em Rio do Sul. “A nossa sala é anônima, em toda reunião a gente explica para os novos que entram. A gente sempre deixa esclarecido sobre o anonimato e inclusive temos até um cartaz na sala que fala “quem você vê aqui, o que você ouve aqui, quando você sair daqui, deixe que fique aqui”. Além disso a gente também explica sempre na abertura e no fim da reunião que aquilo que as pessoas ouviram e não gostaram que elas esqueçam também”.

Sobre a participação de mais integrantes, ela disse que é gratificante receber novas pessoas, por saber que estar também poderão receber acolhimento. “A gente fica muito feliz quando vem pessoas novas, pelo fato de que estão procurando ajuda, e a gente sempre explica que pode falar a vontade se a pessoa quiser desabafar. Nossa literatura é maravilhosa, nos dá caminhos para conseguir sobreviver e viver com esse problema do alcoolismo e da droga. Aqui a gente aprende que não é safadeza ou sem-vergonhice, mas que nosso familiar ou amigo realmente possui uma doença e que esse familiar precisa de ajuda, e só participando aqui do grupo a gente vai poder ajudar”.

Para outra participante, que também está no grupo há 10 anos, ter entrado para o Al-Anon a fez se recuperar de uma vida de tristezas e decepções. “A partir do momento que o meu marido fez o tratamento e entrou em recuperação eu procurei a sala de apoio aos familiares e comecei a me recuperar, porque com a convivência com o alcoólatra a gente acaba adoecendo também, perdendo a vontade de viver, a gente acaba se tornando uma pessoa amarga, eu tinha três crianças então eu criei meus filhos sozinha porque meu marido estava no alcoolismo. Com isso eu me tornei uma pessoa muito triste, muito chata, muito antipática, não tinha alegria nenhuma na minha vida, e eu vivia só para trabalhar e cuidar das crianças, mas, a partir do momento que meu marido fez o tratamento, que ficou internado por seis meses, na própria clínica já me indicaram procurar uma sala de auto ajuda.

Foi quando vim para o grupo. Depois que comecei a participar comecei a ter uma compreensão do que é o alcoolismo que é uma doença, muitas vezes encarada como uma sem-vergonhice, mas aqui a gente conhece que não se pode ter controle com a doença. Então a gente passa a ver o doente alcoólico de uma maneira diferente e a partir disso passei a ser feliz apesar do alcoolismo na minha vida, porque ele está em recuperação mas como a gente sabe não tem cura e que a recaída pode acontecer então eu tenho que estar preparada”.

As integrantes contaram que o Grupo é um programa espiritual e não religioso, e que cada participante acredita em um poder superior. “O Al-Anon é um programa espiritual e não religioso. A gente não olha religião, todos nós temos um poder superior a nós e a gente acredita e põe nossas vidas ao controle dele. Para mim é Deus, mas não interessa para os outros se é um anjo ou que é, mas todos nós temos um poder superior que nos guia e só ele é capaz de fazer nossas mudanças”.

Elisiane Maciel