Por: diario | 01/08/2016

Julieti P. Largura

Considerada uma endemia, a diabetes já se tornou a principal causa de morte no mundo ligada a outras doenças, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS). De acordo com a Federação Internacional do Diabetes (IDF), cerca de 366 milhões de pessoas vivem com a doença e esse número pode aumentar para 552 milhões até 2030. Só no Brasil há 12 milhões de portadores de diabetes, o que representa quase 10% da população.

O que muitas pessoas não sabem é de que forma a doença de manifesta, sendo cada vez mais comum o aparecimento em crianças e adolescentes. Assim como ainda falta muita informação sobre de que maneira ela deve ser tratada. A alimentação também pode ser vilã ou importante aliada na prevenção e tratamento da doença e precisa ser levada a sério. O assunto tem chamado cada vez mais atenção como um caso de saúde pública e até tem despertado o interesse dos legisladores catarinenses, que aprovaram neste mês o projeto de lei que garante aos diabéticos a aplicação da insulina em locais públicos.

Segundo a médica endocrinologista de Rio do Sul, Camila Tonet, a diabetes é uma doença do metabolismo da glicose causada pela falta ou má absorção de insulina, hormônio produzido pelo pâncreas, que tem como função quebrar as moléculas de glicose para transformá-las em energia. A ausência total ou parcial desse hormônio interfere não só na queima do açúcar como na sua transformação em outras substâncias como proteínas, músculos e gordura.

“Diabetes é uma doença bem complexa, é um conjunto de alterações metabólicas do corpo humano e esse conjunto de alterações resulta na hiperglicemia, que é o aumenta da glicose no sangue, geralmente detectada em exames de sangue simples”, explicou a médica, que ainda diz que a doença é, na maioria dos casos, silenciosa e pode demorar a demonstrar sintomas.

Ela ainda explica que existem dois tipos de diabetes. No tipo 1, o pâncreas produz pouca ou nenhuma insulina e a doença ocorre mais na infância e adolescência. “Quem é diabético tipo 1 precisa de um tratamento adequado com múltiplas doses de insulina durante o dia. Sempre que uma pessoa come, uma pessoa que não tem diabetes, o corpo fica produzindo insulina o dia inteiro, como o diabético tipo 1 não produz nada de insulina, então toda vez que ele come ele teria que aplicar insulina para compensar”, disse.

Já no diabetes tipo 2, ou a produção de insulina não é suficiente ou as células simplesmente não conseguem aproveitá-la da forma correta, a chamada resistência à insulina. “A diabetes tipo 2 está ligada a causas genéticas, mas também ambientais, pessoas que estão acima do peso ou que não praticam atividade física regularmente estão mais propensas a desenvolver a doença. É mais comum depois dos 40 anos, mas como a obesidade está ficando muito frequente na infância, está cada vez mais comum a diabetes se desenvolver em crianças e jovens adultos”, explicou.

Ana Carolina da Silva, de 25 anos, conta que desenvolveu a diabetes tipo 1 aos 19 anos, logo após o susto de ter sofrido um acidente de carro, e desde então tem a necessidade de aplicar insulina em média três vezes ao dia. “Quando a gente descobre que é diabética a primeira coisa que pensa é: nunca mais vou poder comer doces. Dá medo e é difícil de aceitar, mas com o tempo acostuma”.

Ela conta que precisa adaptar sua rotina à aplicação da insulina, mas que esse desafio não impede que ela tenha uma vida normal. “O tratamento da diabetes tipo 1 é chato e dá vontade de desistir muitas vezes, ninguém gosta de ficar se aplicando todo dia, mas sabemos que é necessário e para o nosso bem, então depois que se adapta fica tranquilo. O que eu acho mais engraçado nessa rotina, é quando uma pessoa assiste uma aplicação e diz alguma coisa como: nossa tão magrinha e com diabetes? Ou algo como: não fica os furinhos na barriga? As pessoas precisam entender melhor sobre a doença e acabar com esses mitos. Sou diabética e posso comer doces como qualquer pessoa, a única diferença está na insulina, que enquanto nas outras pessoas o organismo produz, a minha está num frasquinho esperando que eu a use.”

A médica Camila Tonet garante que a insulina não causa dependência, mas que o organismo com diabetes possui essa necessidade de receber o hormônio em quantidades adequadas para equilibrar a produção de energia. “A pessoa que não tem a produção de um hormônio ou não produz o suficiente, precisa de uma reposição hormonal, e a insulina é essa reposição de hormônio. Não é que a insulina causa dependência, mas o paciente tem uma dependência de insulina por não produzir ela naturalmente”, explicou.

Sintomas, prevenção e tratamento

Aproximadamente metade dos portadores de diabetes tipo 2 desconhecem a doença, já que ela é pouco sintomática, e só descobrem depois de muito tempo quando precisam fazer algum exame de sangue. Quando presentes, os sintomas da diabetes mais comuns são: urinar e sentir sede excessivamente, aumento de apetite, perda de peso, cansaço, visão embaçada e infecções frequentes. No tipo 2, os sintomas de instalam de maneira gradativa, ao contrário da diabetes tipo 1, que acontece rapidamente e quando não são percebidos a tempo podem fazer com que a pessoa entre em coma, perca a consciência e até passe por uma situação de emergência grave.

“O diabetes tipo 1 não tem como evitar, se você nasceu com essa programação no DNA para desenvolver o diabetes e praticamente 100% de certeza que vai desenvolver. É uma alteração do teu sistema autoimune. O diabetes tipo 2, muitas vezes quando se é descoberto já no começo, a gente consegue controlar durante vários anos só com remédios, mas o que acontece ao longo de 10 anos, 20 anos, praticamente todo diabético acaba evoluindo para a necessidade de aplicar a insulina também.”, explicou a endocrinologista.

A prevenção, por meio de cuidados com a saúde, é um fator fundamental. De acordo com a nutricionista de Rio do Sul, Caroline Bergenthal, que também possui diabetes tipo 1, a alimentação adequada aliada a práticas saudáveis pode contribuir no controle da diabetes, na prevenção e no tratamento da doença.

“A alimentação do diabético é muito parecida com a alimentação de uma pessoa saudável. Não é porque a pessoa não é diabética que vai poder comer um caminhão de doce. Todo mundo tem que cuidar. O diabético também pode comer o doce, ele só precisa equilibrar”, disse a nutricionista.

Ela conta que a alimentação funciona como um remédio para os diabéticos, quando acompanhada e cuidada. Quando uma pessoa saudável come uma colher de açúcar branco, por exemplo, o organismo tentar produzir insulina suficiente para transformar aquilo em energia e quando o pâncreas não dá conta, aquele açúcar se transforma em gordura, que são os triglicerídeos. Para os diabéticos, o açúcar só é transformado com a pouca insulina produzida no caso do tipo 2 ou com a quantidade de insulina injetada no tipo 1, quando essa quantidade açúcar for muito grande, fica na corrente sanguínea.

“O diabético tem que preferir, assim como todas as pessoas, alimentos com bastante fibras, de baixo índice glicêmico, porque a absorção dela vai ser mais lenta. A fibra é digerida de vagar e vai absorvendo aos poucos esse alimento, vai colocando para a célula devagar. Ainda vai precisar de insulina, mas de uma forma mais gradual. Otimizar a produção de insulina é essencial para o diabético”, disse a nutricionista.

Projeto de Lei

A Assembleia Legislativa de Santa Catarina aprovou no dia 12 de julho, o projeto de lei de autoria do deputado Cesar Valduga (PCdoB), que garante às pessoas com diabetes, o direito de fazer tanto o monitoramento quanto a aplicação da insulina em locais públicos. O projeto de lei sugere a liberação em todo o território catarinense, que segundo o Ministério da Saúde possui cerca de 135 mil pessoas diabéticas.

O parlamentar conta que deu início ao estudo depois de se reunir com membros da Associação dos Diabéticos e Hipertensos de Chapecó. De acordo com a entidade, as pessoas glicêmicas sofrem constrangimento ao tentar controlar a glicose e durante a aplicação da insulina. “Cuidar da diabetes é um trabalho diuturno que não pode ser prejudicado por preconceitos sociais. As pessoas não ficam constrangidas ao perceber outra ingerindo um comprimido ou usando um inalador. Então, porque ficam constrangidas ao presenciar um diabético no processo de auto aplicação de insulina?”, disse o deputado em sua defesa do projeto.

Para a médica endocrinologista Camila Tonet, se o projeto se tornar lei o mais interessante será chamar a atenção para o problema. “É uma queixa comum no consultório que muitos pacientes mais jovens têm vergonha de aplicar insulina no colégio, vergonha de aplicar insulina no trabalho, a lei pode chamar atenção e pode ajudar a conscientizar as outras pessoas que não tem diabetes para olhar para isso, olhar para o problema e ver que é uma doença comum. Não acho que a lei vai resolver um problema porque está na cabeça do paciente e das pessoas que convivem com ele, mas serve para chamar a atenção”, finalizou.

Ela acredita ainda que seria necessário que o governo investisse mais em informação sobre a doença, já que muitos são diabéticos e demoram anos para descobrir e iniciar o tratamento, principalmente nas escolas, já que está aumentando cada vez mais os casos em crianças e adolescentes.

O texto do projeto de lei sugere ainda que as associações de diabéticos, entidades e sociedade civil organizada façam campanhas de divulgação de acesso à lei e ao direito de poder fazer o monitoramento. A proibição do acesso ao direito ou o descumprimento da lei por parte de qualquer órgão público do Estado, implicará em multa de R$ 5 mil, com um teto de até R$ 50 mil, reajustados com base na variação do Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M/FGV).