Por: diario | 30/04/2019

Quase 30 pessoas envolvidas, quatro vítimas fatais, 10 feridos e cerca de 60 profissionais de segurança pública e saúde acionados. Essa foi apenas uma parte dos números do pesadelo vivenciado por centenas de pessoas na manhã de sábado (27), após o grave acidente que aconteceu na BR-470 na Serra São Miguel em Ibirama. A colisão frontal envolveu um ônibus da Catarinense, que fazia a linha Joinville-Lages, e uma carreta com placas de São Bernardo do Campo em São Paulo. Uma tragédia que marcou muitas vidas e segundo os passageiros gerou revolta pela falta de assistência da empresa de transporte em relação aos sobreviventes e familiares.

Em meio aos gritos e momentos de desespero um dos sobreviventes da tragédia, Vinicius Palumbo, relembra o acidente. “O ônibus saiu de Joinville as sete horas da manhã e o meu destino final era Lages, mas o acidente acabou acontecendo um pouco antes de chegarmos em Rio do Sul, foi tudo muito rápido e eu estava dormindo, quando eu acordei as poltronas estavam todas acumuladas e uma das mulheres que já havia falecido no momento do impacto estava caída em meu colo. Comecei a procurar a minha mochila e meus óculos, depois um rapaz fez sinal pra gente retirar o lacre de segurança de uma das janelas para usar como saída de emergência. As pessoas que estavam na rua ajudaram rapidamente e um motorista estacionou a sua camionete e os sobreviventes foram descendo do ônibus, utilizando o veículo como apoio”, lembra.

Ele afirma que após a colisão procurou a empresa. “Eu fui no guichê e me passaram um número dizendo que era da assessoria, mas quando liguei lá falaram que não era com eles. Perguntei para quem deveria ligar e disseram para eu tentar ligar no 0800 da Catarinense que estava no site.”

Já outro sobrevivente, que residia em Correia Pinto, Carlos Adriano Ramos Ruivo, contou que estava acordado no momento da batida, porém não viu nada, já que estava agachado para desconectar o fone de ouvido. “No momento da batida eu estava acordado com os fones de ouvido, e então eu me abaixei pra desconectar o fone, naquela hora aconteceu o impacto. Eu bati com a cabeça na poltrona da frente e bati com o joelho no chão. Quando eu me dei por conta do que aconteceu eu escutei o barulho do ar condicionado que tinha estourado e as pessoas gritando por conta do gás que vasava. Somente quando eu sai do ônibus e olhei para a frente dele é que eu vi o que tinha acontecido, de fato foi uma fatalidade”, recorda.

Apesar da empresa Catarinense não ser a responsável pela colisão, Carlos criticou a empresa pela falta de atendimento humanitário, comunicação e despreparo em relação a assistência às vítimas e aos familiares. “Por mais que a culpa não foi do motorista da empresa Catarinense, eu achei um absurdo a falta de assistência por parte da empresa, para mim, não houve assistência alguma. Foi ligado para empresa e ninguém sabia de nada, pediram para ligar para matriz de Balneário Camboriú e lá também não sabiam de nada, não nos auxiliaram em nada, familiares que estavam na rodoviária de Otacílio Costa esperando passageiros que deveriam chegar até lá, souberam pelo Facebook, foram até o guichê e continuaram sem respostas”, comentou.

O sobrevivente reforçou que não questiona o fato de a passagem ser cobrada até o destino final, mas revoltou segundo ele foi a falta de comunicação da empresa, além da falta de uma equipe preparada para momentos como esse. “O que eu penso é que foi sim uma fatalidade, porém não ouve apoio a ninguém, nem assistência, eu tive que ligar pro meu pai vir de Correia Pinto para me buscar no hospital, isso as 17 horas. Não estou questionando valores, mas é uma crítica minha, onde eu percebo que a empresa não está preparada para esse tipo de situação. Eles teriam que ter uma equipe de trabalho e de apoio para momentos como esses, eles deveriam ajudar e não abandonar os passageiros como eles fizeram”, relatou.

Procurada na manhã desta segunda-feira (29), pela redação do Jornal Diário do Alto Vale para comentar as declarações, a Viação Catarinense se manifestou apenas através de uma nota onde afirma que o veículo transportava 26 passageiros e infelizmente houve quatro óbitos. A empresa lamenta profundamente o ocorrido, e disse que vem prestando todo o apoio às famílias e está à disposição para colaborar com as investigações. “Uma equipe da empresa foi encaminhada ao hospital para dar o suporte necessário aos feridos e seus familiares. A empresa informa, ainda, que levantou os nomes e está entrando em contato com as pessoas que foram liberadas antes da chegada de sua equipe para poder prestar-lhes a assistência devida. Os canais da empresa seguem abertos para atendimento por meio dos telefones 4002-4700 ou 0800470470.”

O acidente

O inspetor da PRF, Manoel Fernandes, observou que a curva no trecho e a pista molhada contribuíram para a colisão. Além disso a sinalização no local era de 60km por hora e o motorista, apesar de não estar em alta velocidade, ultrapassou o limite permitido. “A cegonheira estava descendo a serra e avaliamos nos discos tacógrafos que ela estava em cerca de 70 por hora. Não podemos dizer que é uma velocidade tão elevada, mas aquela curva está sinalizada a 60 por hora, talvez por ela estar nessa velocidade além e estava chovendo, e com a pista lisa, o motorista teve a necessidade de frear e a carreta acabou fazendo um L, o que é comum quando a freada é um pouco brusca, e colidiu frontalmente no ônibus”, relata Manoel.

Bombeiros, os verdadeiros Anjos na terra

É assim que Carlos descreveu a redação do Diário do Alto Vale, o apoio recebido dos bombeiros voluntários e militares de todo o Alto e Médio Vale após os momentos de terror. “Os bombeiros foram os verdadeiros anjos na terra, não tenho nem o que comentar, o atendimento e a agilidade na cena do acidente foram essenciais”, destacou.

Rudinei Pinsegher, comandante dos Bombeiros Voluntário de Ibirama destacou a importância da mobilização das corporações entre elas, Bombeiros Voluntários, Bombeiros Militares, Polícia Militar, Policia Rodoviária Federal, Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) e Instituto Médico Legal (IML). “Em menos de 25 minutos, praticamente todas as ambulâncias já se encontravam na cena de emergência, e em menos de uma hora absolutamente todas a vítimas encontravam-se em deslocamento para os hospitais de emergências, exceto as vítimas fatais”, revela.

O comandante parabenizou as corporações envolvidas na ocorrência e reforçou a relevância em trabalhar com pessoas qualificadas e comprometidas. “Todo o serviço de emergência de um modo geral está de parabéns porque foi um rápido acionamento da nossa central, foi um rápido deslocamento e uma rápida chegada na cena de emergência, com um rápido atendimento, foram mais de doze equipes diferentes trabalhando e nem um momento teve atrito, foi 100%. Independente da corporação todas elas seguem o mesmo protocolo e isso facilita muito o atendimento emergencial as vítimas, todos falam a mesma língua operacional padrão em relação as vítimas, todos sabem o que fazer, todos eram pessoas qualificadas dentro do serviço de emergência e isso que facilitou o socorro às vítimas, o protocolo operacional padrão”, argumenta.

Vítimas seguem internadas

Entre as vítimas fatais está o motorista do ônibus, Gilberto Pereira Antunes, 41 anos, de Lages. Também foram confirmadas as mortes das passageiras Gesebel Terezinha Schmidt, 51 anos, (natural de Otacílio Costa), Salete Aparecida Schemes, 62 anos (de Serro Negro) e Edileuza Vieira de Souza, 69 anos, (de Água Branca, Alagoas). Ainda 16 feridos foram levados a hospitais da região. Pelo menos cinco tiveram ferimentos graves.
Procuramos a assessoria de comunicação do Hospital Regional do Alto Vale e até o momento do fechamento desta edição nos informaram que das 14 vítimas que deram entrada na unidade após o acidente, 11 foram liberadas. Três pessoas seguem internadas, uma delas na UTI. O paciente já passou por cirurgia, porém o quadro é estável. Já o Hospital Dr Waldomiro Colautti, de Ibirama, recebeu duas pessoas, sendo que uma ganhou alta nesta segunda-feira (29).

Tatiana Hoeltgebaum