Por: diario | 11/02/2018

Vai ter Carnaval? Eu vou deixar vocês com duas poesias minhas que estão no livro Olhares. Este livro foi contemplado com o Prêmio Nodgi Pellizzetti de Incentivo à Cultura de Rio do Sul e escrito em parcerias com o escritor Gabriel Gómez. As fotos são do acervo do Foto Marzall. E sabe o que a gente quis fazer neste livro? Um convite para você. Isso mesmo. Para que você se proponha a olhar a vida sempre com um olhar renovado. A ideia é essa e está na capa: Quando você muda o jeito de olhar as coisas, as coisas que você olha, mudam…

Um dia eu vou casar
Vestida de branco naquela igrejinha no alto do morro
Da praça vão ver como meus cabelos estão cheios de flores
Como tenho um ventre saudável para parir bons filhos
Habilidade para curar machucados com um sopro
Ou com cuspe
Mãos jeitosas para acertar no ponto do bolo
Fazer remendo
Temperar feijão
Catar piolho
Arrumar compressa
Mexer bala de nata
Bordar ponto cruz
Podar uma roseira
Um dia eu vou casar
E vou ouvir anúncios na rádio Frahm
Vão oferecer músicas para abençoar meu amor
Um dia eu vou casar
E meu vestido vai arrastar na escadaria daquela igreja em cima do morro
Da praça vão ver como meu sorriso me rodopia
Como eu festejo o grande dia
Como meu noivo só tem olhos para mim
Um dia eu vou casar e o rapazinho lá embaixo vai querer casar também
Vai pensar que casamento é a coisa maior do mundo
Vai pensar no noivo e na noiva
Nus
Eu vou repetir que matrimônio só é feito de amor bonito
Um dia eu vou casar
E lá do alto, vestida de noiva, vou me imaginar casando na igrejinha em cima do morro.

Quem decide ir? O destino?
Quem decide ficar? O coração?
O que renunciamos, é encontrado ali na frente?
Seguimos mais fortes pelo poder da escolha?
Mais fragilizados pela separação?
A mala, nas mãos, leva algum retrato?
Quais memórias, neste exato momento doloroso, estão sendo salvas?
Quando serão acessadas?
E por quem?
Quanto silêncio vai ser preciso para secar estas lágrimas?
Esta falta de ar que me sacode a boca
Este aperto que me esvazia
Quanto de mim vai ser preciso para esquecer o nosso nós?
Os nossos nós
Quando vamos repetir nossos erros?
Vamos nos arrepender?
Vamos mutilar esperanças?
Porque agora, é tão difícil mexer as pernas?
Como esquecer teu vulto tristonho se afastando?
Como permitir que meu grito corte a cidade?
Arrebente este anúncio de desmaio?
Quem vai ficar?
Quem vai seguir?
Como vamos nos continuar?
Como não vamos partir?
Porque dói tanto dizer adeus quando não se pode mais dizer até logo?