Por: Isabel Caetano | 30/06/2018

Sabe aquela expressão: “limpar, varrer, só onde o padre passa.” Então, foi o que mais uma vez um País sede da Copa do Mundo fez. Desta vez a Rússia, que tirou de circulação milhares de cães abandonados nas 11 cidades com jogos.

A “limpeza” nas cidades visava causar uma boa impressão, e, o que se veria a seguir, seria um verdadeiro massacre de cães. O problema não apareceu da noite para o dia. Trata-se de só mais um País onde animais de rua são invisíveis para os governantes.

A dita “limpeza” causou uma verdadeira guerra entre ativistas de direitos dos animais e autoridades da Rússia às vésperas da Copa do Mundo. Durante meses eles pediram ajuda ao mundo diante das dezenas de editais nos sites de autoridades russas, que diziam que animais abandonados não deveriam mais apenas ser “recolhidos, esterilizados e abrigados”, mas também “recolhidos, transportados e eliminados”.

No fim de 2017, protetores fizeram uma greve de fome nas proximidades do Parlamento russo. Eles exigiam a aprovação do Projeto de Lei para o tratamento correto de animais. Outros ativistas organizaram vigílias em Moscou. Também em outras cidades russas houve manifestações. Mas não houve qualquer reação das autoridades.

Uma empresa privada de controle de pragas foi contratada para a matança, inclusive se referindo aos cães como “lixo biológico”. Tiros e envenenamento foram os métodos mais comuns para a realização do trabalho, segundo documentos das próprias empresas contratadas. Segundo os defensores dos animais, foram usadas armas de ar comprimido carregadas com um tipo de veneno que causava convulsões e asfixia durante cerca de 30 minutos, seguidos de morte. Nos abrigos, muitos cães foram colocados para “dormir”. Para se ter uma ideia da gravidade da situação, o orçamento era de pouco mais de R$ 6 para cada morte. Os ativistas russos acusam o Governo de ter repassado cerca de R$ 7 milhões para as prefeituras das cidades-sede acabarem com os animais que vivem nas ruas.

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Invisíveis para os governantes

Preocupante também é a denúncia de que os abrigos para os animais “retirados de circulação” na Rússia não são dirigidos por especialistas em bem-estar animal, mas por uma empresa de coleta e descarte de lixo.

Nas proximidades de Moscou havia um caso escandaloso no qual – para economizar dinheiro com soníferos – os cães eram queimados vivos. Segundo ativistas, a maioria das empresas que vencem os editais não tem qualquer escrúpulo na hora de lidar com os animais. Na maioria das vezes, os cães são mortos já na captura ou são sedados ainda durante o transporte.

Este ano estão previstos 900 milhões de rublos para o recolhimento e abrigo de cachorros de rua na Rússia. No ano passado foram gastos 670 milhões. Apesar de os recursos disponíveis serem maiores, a situação nos abrigos superlotados piora a cada ano. A maioria das unidades da capital não tem nem mesmo água corrente.

Segundo a ativista Ivanova-Werchovskaya, o problema exista há décadas e não pode ser resolvido em tão pouco tempo. Ela trabalha para a Câmara Pública de Moscou, onde coordena um grupo de vigilância dos cães abandonados. A Câmara Pública, recentemente criada pelo presidente Vladimir Putin, é um órgão consultivo do Parlamento que assessora o trabalho das duas câmaras parlamentares.

Quem ganha com isso são as empresas que se ocupam do recolhimento de animais, mas também autoridades locais. “A matança de animais sem dono é um negócio extremamente corrupto, muito caro e ineficiente”, diz Ivanova-Werchovskaya. Também empresas farmacêuticas, que fabricam e vendem soníferos, ganham com isso.

Fato é que se trata de um descaso com a vida. Um problema que não deveria ter como “solução” o extermínio de animais. Um cenário que se repete ao redor do mundo a cada quatro anos com a realização da Copa. A solução mais eficaz para o problema poderia ser uma política de longo prazo de castração. Uma abordagem mais imediata para os cães que continuam nas ruas seria o investimento adequado em abrigos adequados. Um trabalho que poderia ter a parceria da Fifa que fatura horrores com a Copa do Mundo.

Ativistas e jornalistas também defendem que a Fifa poderia ter exigido que as autoridades russas parassem imediatamente os assassinatos. Outra medida poderia ser a inserção de uma cláusula de bem-estar animal no contrato com os anfitriões, impedindo esse tipo de prática. Em 2022, por exemplo, a Copa do Mundo vai ser no Qatar, um país que também tem muitos cães abandonados.

Aos astros da Copa poderia sobrar o bom exemplo. Cristiano Ronaldo, Neymar, Leionel Messi e tantos outros poderiam usar da sua fama para incentivar a adoção, os projetos de castração e o amor a seres que só fazem amar.

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