Por: Elisiane Maciel | 23/08/2018

Mais um dia! Acordei. Levantei. Abri as janelas. Tomei banho. Tomei café. Limpei a mesa. Lavei a louça. Fechei as janelas. Chaveei o apartamento. Fui trabalhar. Sai na rua. O tempo está feio. Parece que vai chover. Mas meu Deus, voltarei pra casa só ao meio dia. E se chover? Agora já não lembro se deixei as janelas fechadas. Vou voltar e verificar. Voltei, verifiquei. Estavam fechadas. Sai de novo. Agora sim! Viiix… O tempo está pior. E se der chuva com vento? Acho que não fechei direito. Vou voltar e me certificar. Voltei, me certifiquei. Mas ainda assim vou trabalhar com medo.

Cheguei no trabalho. Meu senhor! Sai do apartamento três vezes e não sei se fechei. Tenho que inventar uma desculpa para sair e ir lá verificar. Mas não sei mentir. Se eu mentir posso ser castigada pelo destino. Já sei, vou ligar para o síndico e confirmar. Liguei! Deu boa! Estava fechado.

Agora sim. Posso trabalhar tranquila. Meu chefe me pediu para ir ao banco depositar um dinheiro. Lá vou eu. Ah não! Essa calçada é adaptada para deficientes visuais. E ela está cheia. Mas não posso passar em cima dessa parte vermelha adaptada. E se eu ficar cega por pisar ali? Cega acho que não vou ficar. Mas não consigo pisar em cima. É errado, se eu chegar a colocar o pé ali, algo de muito terrível vai acontecer comigo. E agora a calçada está cheia vou chegar tarde ao banco. Ai ai ai, falando em banco, não sei se peguei os dados corretos pro depósito. Jesus! Será que eu não perdi o dinheiro? Vou parar, abrir o malote e conferir. Ufa! Está aqui! Mas ainda estou cabreira em chegar lá com os dados errados e depositar para a pessoa errada.

Cheguei, e por sorte, o banco está vazio. O depósito foi feito e o comprovante está na mão. Lá vou eu de volta pro trabalho. Não acredito! Tem uma escada na calçada. Mas não posso de jeito nenhum passar por baixo dela. O destino me “mata na hora” se eu fizer isso. Vou esperar o fluxo de veículos amenizar, e vou passar pela avenida mesmo. Deu certo! Menos um obstáculo!

Voltei ao trabalho. Não acredito! Hoje já é dia 31 e eu ainda não virei a folha do mês que começa amanhã. Aff. Eu sei que tenho que mudar pelo menos uma semana antes para não morrer até virar o mês. Como posso ter esquecido? Espero que “a vida” entenda que o mês da próxima folha inicia só amanhã, e que já estou com o calendário no mês que vai começar. Ainda bem que eu vi. Senão amanhã quando eu chegasse, poderia morrer por isso.

Vamos lá! Foco no trabalho! Viiix… Já é meio dia. Tenho que voltar para casa. Vou limpar minha mesa de trabalho. Arrumar o mouse pad exatamente à um milímetro do início da mesa. Minha caneca de água tem que ficar super discreta atrás do meu calendário e o teclado e monitor devem estar alinhados. Lá me vou. Passar por toda a novela da calçada, das chaves, das janelas, das escadas, das minhas neuras. À tarde a novela se repete e à noite continua… Tic.. Tac.. Tic… Tac.. TOC! Mais um dia se foi, e essa é uma parte pincelada de como é o dia de quem tem o Transtorno Obsessivo-Compulsivo.

Preocupar-se excessivamente com sujeira, lavar as mãos a todo o momento, revisar repetidas vezes a porta, o fogão, ter a necessidade exagerada de arrumar as coisas, deixar as coisas exatamente separadas por cor, por tamanho, querer as coisas sempre retas e com sincronia, ter medo de usar certas cores de roupa com medo de que possa acontecer algo de muito ruim, ser atormentado por dúvidas intermináveis ou por pensamentos “horríveis” são alguns dos inúmeros sintomas do Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC).

Conhecidas popularmente como “manias”, essas manifestações atormentam milhares de pessoas em todo mundo. Em geral elas são acompanhadas de ansiedade, medo e culpa, causam muito sofrimento, tomam tempo da pessoa e interferem nas rotinas pessoais, na vida social e da família. Muitas vezes, não são reconhecidas como sintomas de uma doença o que faz com que as pessoas afetadas não busquem tratamento ou demorem muito para fazê-lo. Analogicamente falando, uma pessoa com TOC é como um disco riscado, que repete sempre o mesmo ponto daquilo que está gravado.

Pessoas com este transtorno sofrem com imagens e pensamentos que os invadem insistentemente e, muitas vezes, sem que consiga controlá-los ou bloqueá-los. Para essas pessoas, a única forma de controlar esses pensamentos e aliviar ansiedade que eles provocam é por meio de rituais repetitivos, que podem muitas vezes ocupar o dia inteiro e trazer consequências negativas na vida social, profissional e pessoal.

A primeira indicação a se fazer, é procurar um psicólogo ou um psiquiatra, para saber o tipo do TOC que a pessoa tem. Depois disso, o profissional vai encaminhar o tratamento ideal para curar esse sofrimento de obsessão. Se você leu e se identificou, procure ajuda! Seu problema tem solução!