Por: Elisiane Maciel | 30/08/2018

Hoje não estou escrevendo para incentivar, motivar ou contar uma história. Hoje venho pedir apelo aos nossos agricultores. Que assim como meus pais, passam por dificuldade. Não são ouvidos. Não tem a mercadoria valorizada. Tem um trabalho super sofrido e cada vez mais escasso por mão de obra.

Vou só citar um exemplo de meus pais. Imagine você, beirando os sessenta anos, construindo estufas de fumo para ter onde trabalhar. Já que toda estrutura que você tinha de cebola agora já não adianta mais, pois bloquearam sua conta, não refinanciaram suas dívidas e não te incentivaram mais a plantar essa cultura. Muitas pessoas que nem tem essa idade já estão aposentadas há anos.

Talvez nem tiveram um emprego tão judiando como o da agricultura. Mas meus pais estão lá. Investindo em novas construções para recuperar o que a cebola tirou, e claro, para pagar as dívidas e ter com o que passar o ano.

Não é dramatização! É realidade! Duvido que você que é agricultor e que está lendo esse texto vai discordar. Nem preciso explicar sobre o sofrimento que é para cultivar uma lavoura. As dificuldades do trabalho pesado. O alto custo. Pouca comercialização. Falta de incentivo… Enfim, vou falar hoje os motivos que levaram meus pais, há anos cebolicultores, e claro fumicultores, mas que por falta de mão de obra mudaram de cultivo, e agora, terão de voltar à essa cultura.

Muito se fala em ajudar agricultura, fomentar mais renda, segurar os jovens no campo, mas quase nada se faz. Meus pais são agricultores desde que nasceram e já plantaram das mais variadas culturas. Desde a cebola, até beterraba, pepino, repolho, arroz… Há alguns anos, o investimento era praticamente só no tabaco, com um pouco de cebola. Depois foi só de cebola sem o tabaco. E agora, terão de fazer safra só de tabaco, sem nenhum pé de cebola. Lembrando que em todos esses, sempre teve culturas alternativas como mais fontes de renda.

Vamos começar por umas das inúmeras dificuldades dos cebolicultores. O custo de produção está cada vez mais caro. Ele vai variar conforme o tanto que o agricultor pensar em gastar, cerca de R$ 12 mil a hectare, podendo passar dos R$ 20 mil se quiser investir mais em herbicidas, fungicidas e etc. Mas, no geral, no mínimo, o custo será de R$ 0,50 a R$ 1,00 por quilo produzido. Já o preço de venda, sobe devagar. Tão devagar que há dois anos, meus pais venderam com a média abaixo do custo. No ano passado, o preço ajudou, mas a qualidade da cebola não deixou com que a produção fosse boa. Mas indo ao ponto, acho que essa é a maior dificuldade para os cebolicultores, pois nunca se tem nenhuma perspectiva de quanto chegará a custar o quilo de cebola na safra. Além de o preço não ser tabelado, ainda varia de acordo com a quantidade de produção da região e país.

Falando nisso, agora vem uma parte que eu acho o cúmulo. Se você vai comprar uma calça, uma blusa, ou até mesmo um implemento agrícola, um trator, uma casa, qualquer coisa nesse mundo, o preço quem impõe é o vendedor, e não o comprador. O comprador talvez vai fazer uma pechincha e tal, mas o preço de venda é feito pelo vendedor.

A única profissão, que eu conheço, que quem tacha o preço é o comprador, é a agricultura. É um absurdo, me desculpem, mas eu acho o fim. O produtor se mata o ano todo trabalhando, investindo, arrumando terras, tratando, plantando, mantendo as lavouras. Chega a hora de vender, ou não acha comprador ou quando acha, não pode exigir preço. O máximo que vai poder fazer é esperar a cotação que melhor chegar para vender. Mas nem sempre é possível, pois quando a cebola não é de boa qualidade, não tem muito tempo de duração na armazenagem.

Por exemplo, se o agricultor não conseguiu produzir uma cebola sã, logo ele terá de vender, porque o risco de ela apodrecer dentro do galpão onde fica armazenada, é muito grande. Ainda mais que, se há cebolas podres junto das boas, as mesmas acabam apodrecendo também. Ou seja, se a cotação ditar R$ 0,50, o cebolicultor se obriga a vender para não perder toda a produção.

Outro grande problema em relação a qualidade, é que, a cebola mesmo estando sã, não consegue a comercialização por ter pequenos arranhões, ou pequenos pedacinhos com machucados, até mesmo ocorridos no transporte da própria cerealista. Essas cebolas de ótima qualidade, por estarem muitas vezes com uma casca faltando, são descartadas pelos compradores. Não há venda, a não ser quando são taxadas de “cebola branca”, aquelas que não se paga quase nada o quilo.

Dentro ainda da qualidade, além da exigência fortíssima de que a cebola esteja especialmente dentro dos conformes exigidos, tem a parte da classificação, onde as cebolas são divididas em “caixas”. Por exemplo, cebolas daquelas bem pequenas, são chamadas de “pirulito”, não há venda. As cebolas “Caixa 2”, que são um pouco maiores, tem o valor reduzido por quilo. E o mesmo acontece com as outras caixas, exceto, com a cebola “Caixa 3”. Essa é a única que tem maior valor.

Resumindo, o agricultor tem que agradar o comprador de diversas formas, desde a qualidade até o tamanho. E todos os anos na hora de vender, a incerteza do preço acontece, pois quem dita o preço é o comprador. E o mesmo vale para outras culturas. O fumo pode ser bom, mas na classificação ele passa conforme o bom humor do classificador. Muitas vezes se planta hortaliças, ninguém compra e é passado a grade do trator em cima.

Enfim, meu espaço acabou, minha última lamentação, por azar do destino ou por sem-vergonhice bancária, quase todos os agricultores conseguiram refinanciar suas dívidas, da outra safra que foi muito ruim. Mas, meu pai foi um dos únicos que não conseguiu. O dinheiro que tinha no banco para que pudesse passar o ano, foi bloqueado. Está sendo tachado de inadimplente. Logo meu pai, que nunca ficou devendo uma bala. Já deu mais de vinte viagens no banco para tentar resolver, é a resposta é sempre a mesma “encaminhamos um papel errado e tem que esperar voltar”. É um descaso com os agricultores. É uma falta de respeito com uma das classes que mais trabalha. É falta de valorização. Uma vergonha! Que pelo tipo, está longe de ser resolvida!

Elisiane Maciel

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