Por: Carmen Marangoni | 12/01/2019

Hoje arrumei o guarda-roupa. Abri as portas disposta a quase esvaziá-las. Não foi para tanto. Mas cavei um espaço. As pilhas que mais me incomodavam eram aquelas onde estavam dobradas as roupas para fazer exercícios. Porque tinha muitas peças. Porque eram de outros carnavais. E, principalmente, porque não estou me movendo para nada. Aquele amontoado de roupas se tornava quase uma ameaça. Tirando- as da prateleira, não elimino a necessidade de mover-me, apenas fico com o necessário para isso. Algumas, dobradas estavam, dobradas ficaram. Intactas, também. Mas muitas estão agora na sacola de doação. Foi embora também uma jaquetinha verde escura que era joia. Poxa. Eu gostava dela. Ela também foi dobradinha para não haver arrependimentos. Se abrisse a sacola talvez mudasse de ideia. Há dias, senão meses, me programava para esta limpa. No fim do ano fiz uma grande. Mas eram aquelas peças mais fáceis de descartar. As de hoje, exceto pelas de academia, requeriam preparo emocional. Eram mais delicadas de mandar embora. Peças com história. Algumas roupas quase conversam com a gente. Elas nos acompanharam em cada uma! Sabem de cada detalhe. O adeus mais apertado foi para uma camiseta. Não era qualquer uma. Era a senhora camiseta. De cor vinho. E dos Beatles. Com recorte larguinho. Desigual. Uma lindeza. E com uma história que faça-me o favor. Ela lembrava muito dos tempos de estudante de jornalismo. De um amor lá de trás. Uma relíquia. Carreguei essa “bicha” comigo este tempo todo. Só de uns tempos pra cá é que começou a me pesar de um jeito insuportável. Precisava me despedir daquelas histórias. Das tantas outras que aquela camiseta e muitas outras peças me apresentavam apenas por olhar para elas. Já era um peso. Agora todas pularam para a sacola do adeus. Desocuparam espaço no guarda-roupa. Os cabides estão espaçados. As pilhas baixinhas como devem ser. Parece que começaram a respirar. Antes tarde do que nunca. A gente sabe que é preciso podar para vir o broto. Que geladeira, por exemplo, às vezes estraga para outra ocupar lugar na cozinha. A folha do calendário necessita ser arrancada para que o novo mês apareça. Às vezes até o cabelo precisa ser cortado para que os novos fios cresçam saudáveis. É preciso parir para segurar o filho nos braços. A gente sabe disso. Mas a gente também adia esse corte tanto quanto pode. Segura a vida. Bloqueia o novo. Por inúmeros motivos. Muitas vezes, é auto boicote. Mas nada como abrir. E também como observar a vida nos detalhes de todos os dias, para criar esta coragem. É como soprar ao universo que está tudo bem. Que o novo pode mesmo bater na porta. Não do roupeiro, mas na nossa. A função com o guarda-roupa terminou. A camiseta e todas as outras peças ganharam a rua. Poderão ser peças de outras histórias. Para mim, agora elas valem mais sendo vazio. Em seus lugares, correu um vento. Um ar. Um espaço para o que virá – porque sempre vem – se há intervalo para isso. Que este ano novo que já está se ensaiando de rotina, seja esta possibilidade de abertura. Que seja este intervalo para a novidade. Para a reciclagem. Para a doação. Para a permissão necessária do novo que está por vir. Porque como já bem disse Eckhart Tolle, “É necessário que as coisas acabem, para que coisas novas aconteçam”.