Por: Carmen Marangoni | 10/11/2018

Pego um táxi porque estou atrasada e enquanto Lisboa vai se modificando pela janela, vou pensando no Seu Hermínio. Quanto amor naquela pessoa. E que baita coincidência ele ser africano. Muita África nesta minha viagem. Na verdade, me disse que é de Quelimane, da província da Zambézia, por onde corre o Rio Zambeze, um dos afluentes do Oceano Índico. Alguma coisa me dizia para sentar e ouvir o que ele tinha para me dizer. Nos conhecemos na minha Oficina de Cartas, na Escrever, Escrever, em abril deste ano. É ali também que nos encontramos para ele me levar para almoçar. Começamos a descer a rua do Alecrim em direção à Algés. Ele me disse que frequenta o este restaurante africano desde 1964. “Tem dois garçons que peguei no colo”, conta sorrindo. Com cabelos completamente grisalhos e muito bem aparados, o Seu Hermínio Francisco Xavier Barreto ainda lembra o atleta que foi. Jogador e treinador profissional de basquete. Foi o esporte que o trouxe a Portugal em 1956. É também professor aposentado há 16 anos. Aliás, é assim que foi recebido pelo guardador de carros no estacionamento. Eles se cumprimentaram como velhos conhecidos. O Seu Hermínio pediu que nos fizesse uma foto. Ele fez o registro dizendo que iria caprichar. Começo a fazer perguntas. Estou tão ansiosa para falar. Como era a vida lá, pergunto. Ele me disse que no lugar onde vivia era bom, que sente saudade das danças aos fins de semana, mas que fora isso, havia e há ainda muita pobreza. “Muita coisa que não dá para aceitar”, fala. É claro que percebo o que quer dizer. Me diz que os africanos se parecem aos brasileiros no modo de comer e de vestir. Ele veio da África com a namorada que se tornou esposa. Viveram juntos mais de cinco décadas. “Ela foi hospitalizada no dia em que completamos 51 anos de matrimônio”, diz. Os olhos firmes em mim escondendo a dureza da vida. Depois de entrar no hospital, não saiu mais, me falou com a mesma voz baixa. Deste dia, continuou, “lembro de ter no frigorífico alguma coisa para comemorar a data”. Imaginei o bolo nunca tocado no refrigerador. Órfão de aplausos. Aquela fria cena que a vida apresentava. Porque parece ser tão cruel de vez em quando? “Me acostumei a estar junto, depois tive que aprender a desacostumar”, diz. Deixo que ele escolha o cardápio. É servido então peixe com batatas e espinafre. Escolho molho de manteiga. É tão saboroso que fico tentando encontrar a palavra mais suave que conheço para descrever e desisto. Não sou boa entendedora de vinhos, mas sei que aquele ali que preenchia as nossas taças não era qualquer um. O Seu Hermínio afastou um pouco o prato e pegou um livro de fotografia de Moçambique. Me estendeu para que enxergasse a beleza do lugar de onde tinha vindo. A África tem a imensidão do Brasil, pensei. E este por do sol que parece ter espaço para se abrir num horizonte que parece muito, mas muito maior do que de qualquer outro lugar. A terra marrom. O céu laranja. Tons que se conhecem. Que nos fazem respirar melhor. Ele puxa um porta cds cinza bem clarinho. Dentro, música africana. São meus, para você, emendou. Já tinha ouvido ele falar que tinha criado o neto, pergunto o motivo. O pai dele morreu quando o Kiko tinha menos de dois anos. Puxa uma pasta preta de uma bolsa de couro. É um esboço de um livro. Quase pronto. Meticulosamente organizado. Vai dar para o garoto que completa 18 anos no mês que vem. Ele está prestes a ir viver numa cidade que fica ao sul Londres, chamada Bournmouth, onde pretende estudar cinema. É aí que a história começa a me sacudir. O Seu Hermínio teve o cuidado para ouvir amigos, a pediatra, a professora de artes, muita gente ligada ao Francisco para uma espécie de biografia que será o presente de emancipação do rapaz. É um incentivo. É um abraço de boa sorte. É uma lembrança para ele nunca esquecer quem é. É uma demonstração de amor. E ele faz isso com o coração sangrando de saudade antecipada. Ele me disse que não tem mais condições de ir a Londres, então ficará ali, em Lisboa, à espera de notícias do rapaz que agora é um jovem e que vai começar a vida e suas andanças. E ele apoia. É claro que sim, mas quase não dá para acreditar na forma como faz isso. Peço para que me diga como o descreveu no livro. Põe os óculos e começa a ler em bom sotaque português palavras tão lindas que preciso apertar os pés dentro do sapato para não chorar. O Seu Hermínio está estraçalhado porque o neto vai embora, não tinha se preparado para este momento, suponho. Ou mesmo que só tenha feito isso da vida, foi pego de surpresa. Passa mesmo muito rápido. Mas quer que ele leve o livro cheio de amor na bagagem. Quase não consigo suportar este sentimento. Acho a despedida a parte mais ardida de tudo. Na saída o guardador de carros levantou a mão. Abriu um sorriso. Desejou sorte. O Seu Hermínio educadamente abriu e fechou a porta de novo. De novo eu me sentia uma dama. O carro deslizava pela bem conservada estrada portuguesa. Era uma primavera chuvosa em Lisboa, me diziam, mas agora tinha estiado. Tudo bem amarelo com este sol das cinco horas da tarde que reluzia no Citroen preto dirigido com maciez pelo Seu Hermínio e com muita precisão. Nos despedimos com um abraço caloroso. A conversa ainda latejando em mim. Ao chegar no local onde estava hospedada, me ponho a escrever. Os dedos parecem não conseguir seguir aquilo que preciso contar. Então passo os olhos no depoimento que a professora de artes do Kiko usou para descrevê-lo no livro de 18 anos preparado pelo Seu Hermínio ao neto: “Sempre pressenti nos bastidores do Francisco um avô nada bengala, mas antes alicerce, um avô trampolim, tal e qual como aspiro que as minhas aulas tentem ser para todos que por elas passam.” Estou impregnada desta união de avô e neto. E então lembro do Seu Hermínio me dizendo que foi o sabor da morna que fez o Kiko ser quem é. Não sei exatamente o que ele quer dizer, mas consigo imaginar. Consigo entender a melodia. Pego o case, escolho um CD. Aleatoriamente começo a ouvir numa voz quase de choro, quase de alegria, uma explosão africana: “Mamãe África, mamãe África, mamãe África. Vem pegar-me ao colo. Vem chamar-me filho. Vem dizer quem sou. Tuas lágrimas são risos que te correm das entranhas. E o futuro é um desafio. Eu aposto que tu ganhas.” Queria conseguir cantar em voz alta com o mesmo sotaque. Continuo a ler o que ele escreveu ao neto: “De agora em diante, repito isso no dia do teu aniversário, embora a idade avance, há uma bonita criança dentro de ti. Por isso continue a estimar a frescura de viver.” É isso que vai ser dito por este avô trampolim, por este galã africano, por este atleta, por este homem, para o neto dentro de alguns dias. Na festa que vai celebrar a vida dele e também marcar a despedida de Portugal. Penso que em poucos dias também vou me despedir de Lisboa. Agradeço que nesta viagem tenha cabido o encontro desta tarde. Os dedos já estão mais aliviados depois da escrita. Mas o coração ainda bate num outro ritmo. Quem sabe, quem dera, seja o da morna. Com que sorte, no embalo deste sopro que é de amor.