Por: Carmen Marangoni | 16/03/2019

Nesta semana, Rio do Sul recebeu a visita de dois artistas que vieram de longe pra falar e cantar um pouco daquilo que acreditam: Raul Misturada e Paulo Monarco. Se nunca ouviu falar, tenta escutar o que eles são capazes de fazer juntos. A vinda à Capital do Alto Vale foi por conta do prêmio Nodgi Pellizzetti de Incentivo à Cultura. É uma dupla que se auto intitula parceiros de vida. E quem tem a oportunidade de sentir a presença deles no palco vai saber por quê. Na quarta-feira, depois de desempenhar inúmeras funções e não ter resposta para as perguntas que mais andam me comichando nestes últimos dias, fui até a Fundação Cultural. Meio arrastada. Como quem começa a praticar exercício físico. Nesse pequeno intervalo de preguiça, onde tudo parece ser uma boa desculpa para não sair de casa, até parece que cultura é uma bobagem. Fui sobretudo porque sei que não é. Minha cabeça ardia enquanto o Raul começava a falava. Mas de repente fui entrando naquilo que ele dizia. Pensei que já sabia a história dele, porque já o tinha entrevistado. Mas era um redondo e grande engano me antecipar nessa conclusão. Fui descobrindo o motivo quando o Raul começou a nos contar que a vó dele, Elsa – que ainda está viva e que foi a responsável por sua criação até os doze anos -colocava ele com a cabeça apoiada no sofá. Era para perceber a vibração que o piano emitia em contato com o móvel e, por consequência, também com ele. Acho que foi mesmo assim que a música foi entrando na vida dele. Eram aulas musicais num estilo próprio. Com uma dinâmica particular, também. Foram as primeiras e principais referências da vida dele. Ela era pianista. E embora a sugestão pareça glamorosa, a vida dele era bem normal. Comendo carne de soja dia sim e outro também, era raro ver um pedaço de bife sobre o prato. Essa condição nunca o limitou. Acho que nunca o impediu de realizar a vocação de ser músico, compositor, produtor e tantas outras coisas que poderia listar se desse uma olhada no currículo dele que é mesmo extenso e tem muitas participações fora do país e com grandes figurões da cena musical. Mas aqui, agora, e também no palco na quarta-feira, não era isso que estava em jogo. Lá, o Raul falava de uma época em que ainda não tinha sequer completado 18 anos. E de como a banda dele, motivada por ele, conseguiu pegar na mão o primeiro trabalho: o primeiro CD deles. O dinheiro foi arrecadado pelas redondezas do bairro onde vivia, em Recife. Natural de Mumbeca II, é mesmo difícil não querer repetir esse nome, inclusive em voz alta, ele foi pedindo na farmácia, na padaria, onde quer que se encorajasse entrar e arrecadar algum fundo. Era preciso 500 reais. Um dinheirão na época e ainda mais para quem não tinha nada. Quem bancou o valor foi o professor Misturada. Ele era um sujeito que vendia sanduíche de sardinha e uma bebida que nunca tinha ouvido falar e muito menos sei o gosto. Não por acaso, denominada misturada. O Raul disse que se ele contribuísse, a banda teria o seu nome. Mas ainda era com uma deferência: Dr. Misturada em vez de professor! Isso porque o Raul já tinha ouvido falar que o professor, que na verdade era comerciante, sonhava em ser doutor. E, como se não bastasse, a foto de capa do CD foi do Dr. Misturada e do seu sanduíche de sardinha. Uma espécie de patrocínio com bônus gigantesco. Só to tentando recortar aqui que quando não cai do céu, é preciso achar um jeito. O que movia aquele garoto não era apenas o talento para negociar, talvez ele até tenha percebido essa característica depois de se inclinar com devoção ao verdadeiro dom que tem, que é o de fazer e proporcionar música. Não sou entendedora de técnica musical, mas sei que o som do Raul é bom. Porque consigo sentir. Mexer um pé junto com a melodia. Porque dá vontade de aplaudir. E de ouvir de novo. Então, para além da suposta cultura, saí da Fundação sacando que quando a gente não tem oportunidade, a gente cria. Era isso que o Raul me dizia aquela noite. E eu já não tinha mais dor de cabeça. Na quinta-feira, foi a vez do Paulo Monarco nos conduzir para as lembranças dos nossos primeiros sons. E de como ele extrai da natureza e de sua própria história a batida para a música que faz. A gente estava lá, chacoalhando com o barulho das pegadas que um bicho que já nem lembro mais o nome e que vive lá no Mato Grosso onde ele mora também, faz. Na sexta, os dois subiram ao palco para juntar tudo isso. As vidas. As labutas. E nos presentear com o talento que é mesmo digno de aplausos e de pedir bis. A semana fechou com a resposta de que a cultura nos leva sempre para um caminho que ainda não pisamos. Mas que tem possibilidade de aplausos. E de nos perceber através daquilo que sentimos. Um outro jeito para olhar para a mesma vida de sempre. É bom não dispensar. Depois desse encontro a gente sempre vai embora diferente. Vai ficando um pouquinho melhor. Digo, a gente e até mesmo a vida que a gente leva. Agora, nem dá para ir embora sem fazer aquele trocadilho engraçadinho e totalmente dispensável: toca, Raul. Mas acho mesmo que é até melhor ouvir ele o Monarco. E fechar assim!