Por: Carmen Marangoni | 28/06/2019

O tempo escapa rápido. Como é que se percebe que ele passou? Porque ele deixa um registro. Já escrevi uma vez que gosto de perceber a ação do tempo no elástico gasto do sutiã, na cartela de anticoncepcional, nos fios que começam a pedir nova pintura nos cabelos. Mas esse tempo que se vai, deixa inúmeras outras marcas e impressões. Para o Cadu, é nas camadas de papéis espalhadas pelas paredes que ele percebe o acúmulo de dias. Por isso, ele gosta de perceber os restos de cartazes colados na rua. Uns sobrepostos aos outros. Para ele, essas camadas são uma espécie de resíduo da humanidade que vai se acumulando com o tempo. Essa percepção e a falta de uma fantasia há muitos anos, foram responsáveis por uma intervenção nas paredes de Londres agora. Eu vou explicar. Quando o Cadu ainda vivia em Porto Alegre, inventou uma máscara com uma caixa de pizza para se fantasiar de robô para um Halloween futurista que ele havia sido convidado e não tinha a menor ideia de como ir. No fim da festa, a anfitriã acabou pendurando a máscara na parede. Muitos anos depois, quando já vivia em Londres, a namorada o fez lembrar desse episódio e o provocou para colar máscaras pelas paredes da cidade. O Cadu voltou a lembrar do quanto gosta de interagir com as camadas de papel sobrepostas. Para além da espessura de sobreposições, ele gosta de imaginar que cada camada já teve uma mensagem. Pode ter sido uma propaganda de um show, de uma manifestação, de uma feira. Para ele, são sempre camadas que já quiseram dizer alguma coisa para uma época. Aquilo que foi comunicado passou e outra coisa foi colada em cima. Não importa! E não adianta! Esse é o registro do tempo preferido do Cadu. É melhor do que relógio. Porque ele gosta de dizer que os novos cartazes nas ruas também sofrem a ação do tempo. Estão expostos à chuva, vento, a serem arrancados ou rasgados por alguém. Além da questão poética, ele acha essa modificação visualmente bonita. Por isso, hoje em dia, caminha até o Brick Lane, um bairro de antigas fábricas de Londres, com muitas paredes de tijolos, para colar máscaras na parede. Ele me conta que é um espaço onde as pessoas intervêm muito com pichação, também. Ele nunca volta aos lugares onde faz as colagens. Mas a meu pedido, nesta semana, voltou e até fez um registro. É porque também eu estou impactada com a ação do tempo. E esse meu impacto em nada tem a ver com as camadas de papéis pela cidade. É porque depois de muitos anos, quase uma década, volto a encontrar o meu querido amigo Cadu. Mesmo que a conversa tenha sido através de vídeo, foi como voltar no tempo. No nosso. Foi bom perceber que esse mesmo tempo foi generoso com ele. Que não lhe alterou muito as feições e ainda lhe aprimorou a veia artística. É bom reencontrar gente, ainda mais quando estamos fora de casa. É como se num passe de mágica fossemos protegidos por uma teia invisível que nos deixa bastante seguros. Logo o Cadu voltará a Portugal, vamos nos ver pessoalmente. Vamos poder rir e conversar sobre assuntos como arte e como as coisas mudam e também vamos poder falar sobre tudo o que nos der na telha, sem nenhuma programação. Porque nossa amizade é assim. E a gente fala muito, muito embora precise de poucas palavras para se entender. Uma espécie de benção. Assim como a arte, é meio improvável querer explicar. Arte, assim como a amizade, é para sentir. E para o Cadu, é ainda uma possibilidade de respirar neste mundo frenético em busca da sobrevivência em que habitamos. O Cadu acha que a arte é um respiro. Eu não sou artista, mas concordo com ele. E torço para que ele continue desenvolvendo muitas possibilidades para fugir dessa correria que já estamos habituados. Tomara que o Cadu sempre registre o seu tempo (e o nosso) com amizade e arte. Para quem quiser saber quem ele é, o Cadu Peixoto é artista visual, graduado em Artes Visuais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, vive em Londres e cursa Mestrado em Pintura pela Universidade do Porto em Portugal. Tem mais aqui: @cadupeixot0 e aqui: https://issuu.com/caduover/docs/portf_lio_novo11.
Ah, e só porque estamos falando desse lance de colagens…. no Projeto Poesia na Rua, contemplado com o Prêmio Nodgi Pellizzetti de Incentivo à Cultura de Rio do Sul, eu e a Ana Piseta, deixamos colado numa parede de tijolo de Rio do Sul uma perguntinha: Quanto tempo o tempo tem?