Por: Carmen Marangoni | 02/08/2019

O que faz um pássaro voar? Ele voa porque tem asas? Ele voa porque vê os seus voarem? Ele voa por hábito? Instinto? Ele voa por repetição? Há algum pássaro que tenha medo de se lançar no ar e mesmo sendo um bicho que voa, tem receio de voar? Ou os pássaros voam porque não tem pavor de se soltar no céu? Daqui, da minha sacada, nesta tarde fria de setembro, observo um pássaro, ao longe, voar por minutos a fio. Só de vez em quando, mas bem de vez em quando mesmo, ele bate as asas. Duas ou três batidinhas ritmadas e ligeirinhas. E volta a ficar firme no céu. Ele é quase um risco em cruz para cá e para lá. E ele faz isso como quem flutua. Como quem desliza. Como quem não cansa. Se ele soubesse que aqui embaixo é mesmo muito abaixo, ainda assim voaria? Mesmo tendo asas? O que poderia impedi-lo de voar? Mesmo sendo feito para voar? E para voar, o que foi preciso fazer? Digo, na primeira vez? Ele firmou as perninhas num tronco grosso de uma árvore e simplesmente se lançou como quem andasse por entre as nuvens? Foi a mãe dele quem o carregou até que, sozinho, pudesse bater as próprias asas para atingir este equilíbrio? É um equilíbrio voar? Foi na primeira vez que conseguiu? É bonito vê-lo, daqui. Parece formar desenhos invisíveis. Sobretudo porque voa sobre um verde bastante irregular. Há folhas mais escuras. Há copas mais claras. É uma camada espessa de árvores que não foram plantadas pelo homem, sobretudo. Um privilégio do meu país. Que avisto aqui da minha sacada enquanto tomo um copo de água e vejo este pássaro. Queria que apesar de voar ele pudesse falar também. Talvez pudesse me responder. Poderia gritar lá do alto alguma das minhas questões. Poderia escolher qual gostaria de me confidenciar. Mas sei que ele apenas voa. Não vou perguntar. Daqui, observo apenas que ele parece se divertir. Ele voa como quem caminha. Caminhar é tão natural para nós. Mesmo que um dia possa ter sido um obstáculo. A gente consegue se lembrar das inúmeras tentativas? Talvez tenham sido por instinto os primeiros passos. Por repetição. Por tentativa de nossos próprios pais que nos colocássemos de pé para simplesmente seguir. E se alguém nos dissesse que nós seres humanos somos capazes de voar. Voaríamos? No que precisamos acreditar para ir adiante? O que nos impede? Você precisaria de uma carta assinada com a garantia de que voar é possível para se lançar? Queria que Deus se materializasse, – na forma de quê, ou de quem? – para acreditar? Tentaria por dinheiro? Voaria se a sua mãe ou a pessoa que mais ama lhe desse tal garantia? Iria pelo menos tentar? E se para nós, ser feliz equivalesse ao que é para o pássaro voar? E se nós, bichos homens, tivéssemos a garantia de que basta viver para sermos felizes. De fato, seríamos? Tentaríamos, pelo menos? Ou viver é um constante bater de asas em vão? Penso tudo isso enquanto vejo a água sumir do copo. Matar minha sede. Não a das perguntas. O que o medo causa na nossa vida? É ele mesmo o grande vilão? Ele chega a ser um vilão? E nós sabemos do que temos medo? De onde vem este medo? Ele é originado por algo externo? Ele tem motivo para existir? O medo existe, de fato? O que já deixamos de fazer por causa dele? Alguma vez triunfamos mesmo apesar dele? É preciso estar escrito que vai dar certo pra gente tentar? Então, é preciso garantia para viver? O certo é que o medo paralisa. Já ouvi dizer, de boca de gente que estudou para isso, que o medo é bom. Serve como um termômetro. Se não tivéssemos medo poderíamos cair com mais frequencia, me explicava. Ele nos obriga a calcular as nossas chances. Pode ser. E pode não ser, também. E nem sei se isso realmente importa. Talvez, olhando para este pássaro fica mais fácil definir. Talvez a gente tenha mais medo de sentir medo do que medo propriamente dito. Dá para entender? E se o nosso medo for este mesmo? Talvez neste caso, seja uma grande bobagem senti-lo. Somos nós quem damos forma ao que sentimos. Somos nós quem controlamos aquilo que vamos fazer. Não tem nada externo. Está tudo aqui dentro. Dentro da gente. Perto de Deus. Então, por que temer? Qual seria o sentido da vida se ela fosse mesmo apenas um intervalo de tempo a nos assombrar? Feito quarto escuro na infância? Talvez a limitação esteja apenas na nossa forma de pensar. Talvez seja preciso acreditar na gente antes de ter coragem de abrir as asas. Sim, as nossas. Daqui, mesmo sem nenhuma resposta soprada em voz alta, sei que o céu não tem limites. Basta ver para ter certeza de que há muito espaço nele. Posso enxergar. Assim também como a vida pode ser um lugar onde podemos experimentar a felicidade. Fazer prova de nossas limitações. Cair e pedir ajuda. Mas não deixar de alçar voo. Mas pra isso é preciso não ter medo dela. Será que não é assim mesmo que funciona? Então, que tal? A gente se encontra por aí. Tomara que seja na possibilidade incrível de sentir o vento no rosto quando todo o resto do corpo parece mesmo levitar. Com a liberdade e a leveza para nos sustentar em nosso próprio tempo. Se for para eleger, melhor dar a mão para a fé antes que para o medo. Nunca li, em lugar algum, que não poderia ser assim. E mesmo que tivesse lido, prefiro acreditar que sim, que Charles Chaplin, tinha razão ao dizer que “A vida é maravilhosa se não se tem medo dela”. Escrevi este texto em setembro de 2018, agora, agosto de 2019, estou em Portugal. Sinto saudade dessa vista. Desta minha casa. Mas sei que estou alçando meus voos. A vida é mesmo uma belíssima oportunidade para ser. Ou, como quer que seja, voar.