Por: Carmen Marangoni | 22/03/2019

Não tem como escrever se sentindo careta. Solitária ou com fome. Pra escrever é preciso estar com os pés quentinhos. Com a louça lavada. Com as contas pagas. Não é preciso ter um grande amor. Nem um amor, apenas, pequenininho. Mas é bom estar estar vivo. Escrever sobre o que é morno não vale a pena. Perdi o jeito com a escrita, mas ando afinada com a dieta. Não há pó sobre os móveis. O chinelo de pano anda tinindo de tão branco. A grama muito aparada. As bainhas das calças também. Não tem como escrever sobre o que não se sente. É preciso primeiro correr por dentro. Medir o calor. A vibração do toque. A taquicardia da falta. O gosto da presença. Depois jogar tudo na bacia do entendimento. Sovar um pouco. Enjoar. Antes de jogar fora, cheirar de novo. Daí a escrita pulsa. Ela foi mexida pela coisa. Daí ela começa a amolecer dentro da gente. Nos põe de um jeito esquisito. A gente lembra da Adélia Prado. Fica convencida de que o vestido azul é mais bonito do que o vermelho. Pinta os lábios. Faz um convite irrecusável. O moço aceita. A gente ensaia um passo de dança. Tira o sutiã. Joga em cima da cama. Peca pelo abuso da vontade. Enrola a meia fina. Dá tom para o gozo. Diz boa noite no escuro. Ouve a resposta. O coração palpita. Pra escrever é preciso se perdoar. Por o dedo na goela. Abandonar a vergonha. O que será que Matilde vai dizer ao se reconhecer neste texto? Escrever é vomitar na pia. Pegar um ônibus para parar onde for melhor. No caminho a gente decide se vai espremer mais limão na geléia de banana e alterar a receita da vó. Pra escrever precisa ter motivo, não. Só sentimento. E nem precisa ser coisa boa. Pode ser dor. Daí, a escrita até que alivia. Pode ser tristeza. Daí as palavras jorram zombeteiras. Querem caçoar da gente. E a gente até percebe que não precisava ter ido tão fundo na agonia. Era só abrir a janela. Pra escrever tem que ter tia no interior. Pra inventar nome pra bicho de pé. Por mais água pra ferver. Enrolar massa caseira na alça do fogão a lenha. Pra escrever tem que estar de olho no moço bonito da padaria. Tem que sentir saudade de alguém. Comer figo sem gostar. Acariciar bicho esquisito feito gato de vizinho. Pra escrever é preciso não estar com um pouco de sono. Não precisa ser de noite. Com fome acho que não dá. Mas com vontade de chorar quietinha ou berrar bem alto também dá certo. Pra escrever é preciso ter uma folha em branco e um pouco de tempo. E se tiver conhecido a si próprio e ainda existir você aí do outro lado, bom, daí a gente escreve de qualquer jeito.