Por: Carmen Marangoni | 14/09/2018

Estou em casa. Meus pais não sabem que te vejo. Ainda nem completei oito anos. Estão distraídos demais para perceber-te. Concentram-se em ser casal. E minha nossa, como se bastam em sê-lo. Minha mãe tem sempre dezoito e poucos anos quando está sendo vista por meu pai. É um momento para esquecer das privações. Minha mãe acha o meu pai tão bonito de suspensório. Ela ri como se estivesse com vergonha. Ele a olha como se estivesse nua. E assim os dois ainda ficam bonitos. Ela nos cuida feito uma onça amarela. Eu vi uma no mato, acreditem. Mas sob o olhar dele é sempre uma jovenzinha que necessita apenas de um abraço. Já meu pai, não dispensa a melodia suave da boca dela. De bastante molho na comida. Ensopadinho de carne com batatinha. Este sabor que minha mãe já caracterizou como o gosto da nossa casa. Ela espalha vasos floridos que precisam se equilibrar sobre as coisas. Até no parapeito da janela. Toalhas brancas, quaradas no sol de qualquer estação. Ela puxa as cortinas para a casa respirar. Santa Bárbara, clareai. É como ela caminha pelo assoalho quando vem trovoada. Com palma benta da igreja e tudo. Também curamos as dores de barriga com os chás plantados por ela no quintal. O de boldo pode ser frio, bem masseradinho. Meu pai gosta, imagino, de enxergá-la com dezoito anos. Para aprender a amá-la ainda mais a cada ano que entra e se vai. É sempre calor quando um ano começa e quando nos despedimos dele, também. Já reparaparam? Sem a força discreta camuflada pela feminilidade de minha mãe, meu pai não teria tanto vigor em sua tarefa de homem da casa. Assim estamos todos protegidos. Até do prato com pouco feijão. Da roça seca com falta de chuva. Do pai esperando a mãe terminar a janta. Ela na frente do fogão. Ele esperando na mesa da cozinha. Uma vela acesa no canto. Temos este fio que nos intitula família. E cheiramos como tal. Como se tivessemos escolhido, desde há muito tempo, que seria assim. O amor parece antigo, explicado daqui, do colo de meu pai. Só sei que se eu coloco uma coisa na cabeça, penso que vou conseguir. A mãe fala que isso também é amor. Quando eles estão compenetrados na demora deste olhar, dificilmente percebem que eu te miro. Mas eu sou ruim de ficar distraído. Sei que vou crescer. E vai ser mais rápido do que o pé de figo. Até meus cabelos vão desencaracolar. Se é que esta palavra existe. Vou encontrar a porta de casa. Primeiro a de saída. E quando voltar, pela de entrada, já terei entendido que este processo não tem volta. É como sair do ventre para ganhar a vida. Vou ganhar a rua. Mas é porque eles estão assim, quase desavisados deste futuro, envolvidos em sermos nós, tocados pelo som dos seus próprios risos que eu apenas te olho. Não falo nada. Muito menos soletro a palavra futuro. Não quero precisar dar este aviso. Porque só eu sei como é suave o colo de meu pai. Amolecido pela amorosidade do sorriso de minha mãe. Como nos cabemos em nossos abraços. Em nossos aconchegos. Estou driblando o tempo, enquanto este momento está congelado na fotografia, para registrar. Como num pacto de sangue. Daqui, do colo de meu pai, enquanto olho para você, não quero esquecer como é cheiroso o tecido puído do avental de minha mãe. Que nele seca suor, enxuga as mãos. Tira excesso de banha dos dedos, de farinha, açúcar. Daqui, enquanto os dois estão risonhos por serem também meus pais, me admiro por saber como só me fazem cócegas as asperezas dos calos das mãos de meu pai. Que manuseiam ferramentas de afiar. Que lavram a terra que nos dá de comer. Que alimentam bocas que não aprenderam a agradecer por este trabalho. Daqui, do colo de meu pai, ouvindo o som da alegria de minha mãe, hipnotizado pela força do contemplar deles, olhando para você, gostaria que o tempo passasse bem devagar. Mas parece que errei o canto da missa. Sinto como se fosse fotografado pelo futuro. Enquanto no rádio toca esta música que eu não sei acompanhar, mas tenho a sensação de que jamais irei esquecer, queria que a vida fosse de alguma coisa que não se acabasse nunca.