Por: Carmen Marangoni | 20/10/2018

Quando vi a Gloria Menezes pessoalmente a achei muito mais magra. E também muito mais bonita e principalmente talentosa. Era incrível a potência daquela voz. A expressão daquele corpo. Como ela conseguiu me fazer rir e chorar. Eu não via isso pela TV, embora soubesse que ela era uma grande atriz. Foi no Theatro São Pedro, em Porto Alegre.

Era um espetáculo lindíssimo que me emocionou pela simplicidade das coisas. E que me fez agradecer pelo carinho que pode tomar forma, quando é de verdade. Ela interpretava a avó de um garotinho. E ali tinha uma lição de vida poderosa. Fui pra casa feliz, pensando em todos os meus afetos. Sabendo que a vida, por conta deles, tinha muito significado. Eu tinha conseguido sentir todo aquele amor por ter ficado duas horas com a Gloria Menezes no teatro.

O mesmo aconteceu na semana passada, quando fui assistir ao espetáculo “O que só passarinho entende” interpretado pelo Samuel de Paes Luna. Ele é mais bonito pessoalmente. E ele tem muito mais talento do que eu já tinha visto interpretar nas novelas da globo. Quando me acomodei no teatro embaixo da ponte, um privilégio nosso, aqui de Rio do Sul, de dar inveja ao mundo, no palco tinha apenas umas árvores secas. Um banquinho. Uma chaleira pendurada com duas canequinhas. Tinha uma relicário, também, com a imagem de um santo.

Uma roda, como se fosse de carroça. Uma janelinha. Tudo sugerindo simplicidade. Algumas tramas mesmo de fios entrelaçados ainda para identificar aquele enredo. O palco, quando está montado, mesmo estático sugere um movimento. É preciso acender alguma luz, mesmo que seja fraca e apenas num canto para começar. A gente precisa ver. E sobretudo em todo palco é preciso ter um ator. Embaixo da ponte, na semana passada, tinha. Tudo isso. O Samuel tem um rosto conhecido, que a gente só recorda depois.

Ao olhar pra ele, só entendemos que já o vimos de algum lugar. Por esbarrarmos na rua, aqui em Rio do Sul, podemos até pensar que foi a pouco no supermercado. Mas é da TV que já o conhecemos. Agora, depois de assistir ao espetáculo que está entrando em cartaz em outros lugares do Estado, percebi quem era aquele ator. Porque no teatro você sente a pessoa. Sente até o cheiro dela. Foram quase duas horas de hipnose. Não dava para tirar o olho dele. E o cenário ia modificando para contar aquela história.

De repente, aquela era a casa, o lugar no mundo da Totonha. Um personagem que ganhou vida nas palavras do próprio sobrinho, o escritor Marcelino Freire. É de uma simplicidade generosa a peça. Tudo está no mundo, basta a gente treinar o olhar para ver. Mas o que eu quero mesmo é contar que depois da peça, numa conversa com o Samuel, percebi quantas mãos trabalharam para dar vida ao que tínhamos acabado de assistir. Até o senhor que trabalhou naquela roda estava lá. Aquela roda era uma roda gigante que ficou iluminada e nos levou a todos para uma volta. Ali, percebi também a vida que existe para criar. Pra gente, que somos platéia, podermos sentir. É um presente. Pensado. Trabalhado. Aperfeiçoado. Como o próprio Marcelino disse, o ator doa o seu tempo, o seu suor, empresta o seu corpo para que a gente possa sentir. E ele não se vê atuando.

Ver nos olhos do Samuel aquela alegria da estreia era como estender ainda mais aquele privilégio. Que bom que temos no mundo pessoas capazes de pegar os sentimentos, de molda-los, para nos oferecer. Que bom que existem Totonhas, aqui na nossa região há tantas, que podem nos emprestar o olhar para também enxergarmos outros mundos. Um único mundo melhor. Mais cheio de amor e de compreensão.

E que bom que esta peça ainda vai circular muito. Porque ela leva uma mensagem imprescindível à vida. Como é bom poder parar um minutinho para se dar este presente. E para aplaudir.

E como é bom saber que a gente pode ser ainda mais bonito na nossa realidade. Não importa qual ela seja. Todo mundo tem uma história pra contar. Toda vida é uma boa história. Mas só alguns tem a capacidade de interpretar estas histórias e desta forma, impactar a vida de tantas outras pessoas. E o que só passarinho entende? Ah, daí tem que ver a peça pra entender! Aqui tem um pouquinho mais do Samuel, que agora está aqui, pertinho da gente, também: https://www.instagram.com/samuelpaesdeluna/