Por: Carmen Marangoni | 30/01/2019

Nestes últimos dias, o lance da música envolvendo o nome do Fábio Assunção, roubou espaço nas timelines da vida. O ator fez um vídeo e postou no Instagram dizendo que não é contra a liberdade de expressão, mas que não gostaria de banalizar a dependência química, que ele chamou de doença. Em poucos minutos ele falou que consultou o corpo jurídico que o acompanha e também a equipe de assessoria de comunicação e que resolveu fazer um acordo com a banda que utilizou o nome dele. Ficou decidido que o valor gerado com a música será revertido para casas de apoio.

Depois de assistir este vídeo dele e de nem querer procurar a música para ouvir, li no perfil da Maria Ribeiro, que foi ou ainda é namorada dele, um poste que me chamou a atenção. Ela dizia que sempre vai amar o ator por ele ter coragem de por a cara na internet e ser quem é, ainda mais em tempos tristes como hoje em que todo mundo paga para limpar a sua própria imagem ou cuida com o que diz para não perder seguidores. Ela dizia algo no sentido de que sim, podemos não pagar o IPVA, talvez beber, talvez fumar, que podemos nos separar ou não ou tudo isso junto e que nem por isso seremos menos família ou menos amor. Ontem, por acaso, conversava com uma pessoa que admiro muito e contava esta história pra ela. Foi daí que surgiu a ideia de escrever. É porque ando pensando muito sobre isso. Sobre a coragem de ser quem somos. Sobre a liberdade, sobretudo, de assumir quem somos apesar de ser quem somos. É essa vontade, inclusive, que está nas entrelinhas do meu romance, escrito por conta da minha última viagem a Portugal. Mas é difícil. Precisa ter uma mega coragem e disposição para enfrentar o que vem depois disso.

Mas é também o que estou tentando encaixar – a duras penas – na minha própria vida. Muita gente fica sem chão, porque se acostumou a te ver de um jeito. Um jeito que você jamais cogitou, mas que parece que não pode fugir. Tem momentos engraçados por conta disso. Mas na grande maioria é só difícil mesmo. Não faço apologia a drogas, separação, não pagar as contas ou nada neste sentido e nem quero apenas falar bonitinho. Apenas penso que é mais verdadeiro assumir. E que a gente oferece a verdade para alguém ou alguma situação por amor. A verdade é uma das melhores coisas que podemos oferecer. Já pensou nisso? Além do mais, nunca gostei e espero mesmo nunca gostar de gente perfeita. Porque elas não existem. Gente que parece só ter boas coisas a mostrar e oferecer pode estar escondendo algo bem maior e pior. Não, quero coisas ruins de ninguém, mas nós somos seres humanos. E, por isso, estamos todos na mesma barca. Vamos falhar, sim. Vamos fazer coisas bobas como querer fumar um cigarro e depois outro e nem vamos conseguir explicar o motivo para isso. E depois vamos lutar para conseguir largar e ainda vamos ser nós mesmos fazendo coisas que quase não se explicam. Depois tentando corrigi-las. Depois tentando dar um tempo também da mania de só fazer tudo no rigor da perfeição. Porque isso cansa. Cansa querer estar sempre bonito na foto. Cansa ter sempre a melhor indicação para tudo desde uma citação até um lugar para jantar. Cansa ser aquela pessoa que cuida do corpo e da dieta sempre como se não houvesse a opção para um sorvete ou um churrasco sem culpa. A culpa cansa. A necessidade de perfeição, também. Ter coragem de assumir quem verdadeiramente somos é tão libertador que me comove. É deixar cair as máscaras. Então, no fim das contas, a dependência do Fábio Assunção levantou esta questão. Marketeiros de conteúdos digitais escreveram – e muito bem – que ele deu uma lição de marketing ao se posicionar desta forma. A gente já percebeu que não cola mais o marketing água com açúcar na última campanha eleitoral. Talvez possa ser visto assim. Não tenho argumentos para contextualizar neste sentido – e nem quero. O que queria mesmo dizer é mesmo não sendo perfeitos, somos de verdade. E é bom quando a gente consegue se acompanhar de quem verdadeiramente somos. E de gente que também é como é. E pronto. Simples.

Para além do sobrenome, da profissão, do cargo, do status, da quantidade de likes que conseguimos gerar de forma orgânica. A vida é mais. Nós também podemos ser e conseguir sem a necessidade obsessiva de tentar alcançar o mais alto grau numa escala de valores. Ou, de querer apenas mostrar o que é bonitinho para fingir que estamos indo bem na busca pela excelência no mais alto grau. Vamos ser quem somos. Aliás, desconfiar de quem somos já é um bom jeito de começar.