Por: Carmen Marangoni | 27/10/2018

Encontrei a costureira na saída da rua São Paulo. Cumprimentei-a, e como nossa relação é quase de parentesco, lancei a pergunta, meio cantadinha, destas que já entusiasmam para uma boa resposta.

– Tudo bem?
Apontou para o osso logo acima da virilha.
– Estou mancando.

Aqui existem três tipos de cumprimento. Aos menos chegados, se finge que são invisíveis, não se levanta os olhos na rua. Tem os conhecidos que se cumprimento apenas com uma expressão facial cordial, mas sem abrir a boca para dizer bom dia ou boa tarde, por exemplo. É quase uma falsidade. E os chegados, que se faz uma festinha. Uma perguntinha, uma coisinha para indicar o sentimento. Eu não gosto de nenhum dos três tipos de cumprimento. Mas sei exatamente qual aplicar na hora que preciso. E faço isso. Com certa diplomacia, até.

Espremi os lábios em tom de solidariedade, mas não encompridei o assunto. As mazelas, se calhar, vão longe e não poderia arriscar de perder o ônibus. Coisa rara por estas bandas.

– E onde vai? (Pensei comigo, já que manca, para que andar tanto)
– Lá na cerâmica – apontou com o dedo para o morro atrás da igreja. Matar galinhas.

Exótico para o início de uma tarde de terça-feira. Ainda mais estando nublado.

– Vou ajudar minha irmã. Não gosto de matar galinhas, mas é preciso fazer um ou outro favor de vez em quando.
– Claro que é.
– Ela tá com os dedos grossos de reumatismo.

Minha sobrancelha já estava quase alcançando os fios de cabelo da franja. Chegamos na rua que cada uma seguiria por rumos opostos e nos despedimos.

– Tchau, tchau.

Os braços altos em tom de adeus. Meu pai criava codornas e também galinhas. Era num tempo em que ele cismava ser granjeiro. Ouvia dizer que só faltava uma vaquinha para dar leite. Mas nós vivemos na praça, respondia a mãe, sempre com pesares de ter feito a escolha errada. E depois que meu pais as engordava, matava todas. Menos as codornas, que ele preferia ficar apenas com os ovos. As galinhas vinham parar nas minhas mãos e de outras crianças que eram primos ou filhos dos vizinhos. Em dia de matança, sobrava para a gente arrancar as penas. Eu não pensava da galinha, está morta ou não posso com este cheiro de pena molhada. Ou como as unhas arranham os braços quando é preciso virá-las de burço.

Gostava da primeira arrancada. Afundar as mãos nas penas. Amontoar bem na palma das mãos e puxar. Sentia o estalinho delas soltando da pele. Amontoava uma saliva na boca de satisfação. Depois admirava o buraco arredondado. Sem pena nenhuma. Apenas a pele, vermelhinha. A mãe recomendando.

– Tirem também as mais fininhas.

As que sobravam eram sapecadas em fogo improvisado numa frigideira. Subia um cheiro de galinha depenada por tudo. Até no edredom, na hora de dormir, ficava aquela sensação de morte. Mas lá ia a costureira, sem mancar nadinha. Ia longe, quase na esquina da delegacia.

Aposto que ela já ia pegar as galinhas sapecadas, para partir para a próxima etapa. Abrir o peito e tirar os miúdos. A conversinha não me fez perder o ônibus. Se ia longe a costureira, rápido chegava o meu transporte e de tantos outros que queriam ir para a cidade grande. Subi no coletivo e exatamente meia hora e 20 km depois – porque olhei no relógio e sei as distâncias de cor – vi um galo tentando atravessar a rodovia. Já mais larga e asfaltada. Com movimento. Tinha tanta cara de galo. Um pouco baixo para ser galo, mas com penas bem avermelhadas e uma crista de dar respeito. Atrás dele vinham duas galinhas apressadas, correndinho. É engraçado ver a galinha correndo. Onde estão suas mãos? Ele se arriscando para pisar no asfalto, atento. Elas alopradas e distraídas. Seriam a esposa e sua amante?

Tinham ares de que o disputavam. Ele nem parecia que lhe faltava os braços. E eu quase chegando ao meu destino, só sei de uma coisa, vou ter que recusar a lasanha de frango servida na casa do café.