Por: Carmen Marangoni | 12/07/2019

Como está frio no Alto Vale. Tenho recebido fotos da minha família. Tenho visto fotos da geada (e nem precisa ser em cima da serra). O frio está pintando a paisagem de branco. Enchendo as pessoas de casacos. Vejo, mas não sinto o frio. Aqui, as temperaturas estão subindo. Faz sol e calor todos os dias, nas últimas duas semanas. Ando de havaianas e penso em estar na praia. O único lugar onde, inacreditavelmente, tenho contato com o frio. Porque a água aqui é gelada. Isto tem me feito reparar em como me habituei a pensar que depois da primavera virá o calor e mais pra frente, a virada de um ano. Onde tudo no Brasil parece parar de tanto calor. Aqui, a estação mais quente do ano está na metade dele. No verão não virá o natal e muito menos o réveillon e o desfile de roupas brancas. É como se eu tivesse invertido a lógica das coisas. É como se eu pudesse sentir, através do termômetro, a distância da minha casa. A proximidade está na fala. Aqui se fala português. Então, não estou longe do que sei de mim. E de mim, sei que sempre me encantei com as ruelas estreitas. Com os becos cheios de pedras e com as varandas de gerânios. Sempre saboreei o sotaque português. Acho bonito dizer camionista e saber que no Brasil se fala caminhoneiro. Repito em voz alta a palavra camionista e parece faltar consoantes, mas gosto da sonoridade. Nesta semana, enquanto descia a pé a Avenida da República em Vila Nova de Gaia em direção ao Jardim do Morro, à espera do por do sol, abri os ouvidos. A primeira sensação foi que as gaivotas são as donas do céu. O azul é riscado por um traço branco vez por outra por conta da presença delas. São mesmo muitas nestas bandas de cá. E elas soltam um tipo de canto estridente e desafinado. O som do brasileiro toma as ruas. Há muitos sotaques, como se o Brasil estivesse concentrado em cada bairro de qualquer cidade. E aqui, também, porque estamos do outro lado do mar, somos todos do Brasil, apesar da nossa diversidade. O homem que vende pizza perto de casa veio de Belo Horizonte, com a família inteira, há 13 anos. Ele já fala português de Portugal de forma exemplar. Mas basta um oi em brasileiro para ele largar o sotaque mineiro. Sabemos-nos em casa com duas ou três palavras mais. Não precisa de nenhum discurso inflamado. Tenho gostado de me deixar conduzir por estas pessoas. Tenho sido habitada pelo carinho da língua. E também por uma prestatividade que espelha o jeito português de ser. Num domingo, fui recebida na casa da Ana. Ela me preparou uma comida caseira. O filho mais novo, o Joaquim que acabou de completar dez anos de idade, colocou perfume para me receber. O João, o filho mais velho, que já está com vinte anos, queria saber detalhes da política, da geografia, e da rotina de um brasileiro. Foi bom contar. E foi bom estar tão perto da intimidade desta família, também. Saí da casa da Ana com um sabonete indiano, que foi presente dela, da última viagem que fez à Índia. Ela é filha de um indiano que se casou com uma portuguesa. É uma mistura excêntrica que pode ser sentida nos textos que ela escreve. Motivo pelo qual a conheci, através do seu blog, a cerca de vinte anos. De ídola, passou a ser minha amiga. Este é um jeito de amar Portugal. Sempre se aprende. Dentro ou fora de uma casa portuguesa. Nestes dias, procurava um restaurante que ficava próximo a um museu. O taxista que me levava não conseguiu identificar no GPS o local exato. Sem me dizer nada, desceu do carro – com ele ainda ligado – andou uns cem metros até encontrar alguém. Quando voltou, me disse que já sabia como me deixar à porta de onde eu tinha que ir. A naturalidade desta ação me espantou. A forma como fomos educados fala por nós. Por aqui, tenho me espantado também com tantas línguas, fisionomias e modos de ser. E tenho reverenciado o lugar de onde vim por conta disso. A gente pode gostar de estar no mundo, mas vai ser sempre filho de quem é, do lugar onde nasceu. Na mesa onde cresci, tem polenta com banana frita. Rosca de polvilho. Nega maluca. Pão com nata e linguiça. Na minha janela, uma paisagem verde. E gente do Alto Vale. Com sotaque do meu lugar. Ainda assim, o brasileiro e o português são como primos distantes. Sabem-se como família, só precisam mesmo se encontrar. Que bom que este encontro acontece comigo, agora, aqui. Neste calor de julho. Porque ainda me sobraram olhos para os azulejos. Para os castelos. Para a história. Para as pessoas. E, claro, saliva para os pastéis de nata, bacalhau e para os vinhos.