Por: Carmen Marangoni | 24/11/2018

Faltou luz no Bom Fim. Não foi uma faltinha passageira desta que nem dá tempo de achar e acender uma vela. Foi um intervalo de intermináveis duas horas. Fechei a porta do pátio pra não entrar bandido e fui atrás de um Fiat Lux. Acho engraçado porque aqui em Porto Alegre, quando falta luz, a gente ouve muitos apitos de guardas no trânsito. Parece que estamos perdendo um grande desfile alegórico na outra quadra. Quando eu era criança, a falta de luz era uma constante. A gente já tinha rotinas para o acontecimento. A cidade ficava numa escuridão tremenda. Em Agrolândia, só tinha gerador no ginásio de esportes e numa das duas fábricas grandes. Quando faltava luz de tarde, nós nem percebíamos. Continuávamos com as bonecas, com o jogo de mata soldado ou com a brincadeira de pegar. Se por motivo de trovoada, a mãe acendia uma vela e dizia bem alto, como se estivesse falando diretamente com a santidade: Santa Bárbara, clareai! Se não era motivo de muita chuva, e já tinha anoitecido, quando tudo fica mais evidente, meu pai dizia: isso só pode ter sido um bêbado que bateu num poste. Se a gente desse corda, ele até falava o nome do bêbado e o local do acidente. Mas nós só olhávamos meio arregaladas, com muito cuidado para não pisar em sapos ou lesmas na calçada, e não dizíamos nada. Nessas ocasiões, íamos todos pra frente de casa. Nós e a vizinhança, meios escorados no muro. Vinha o Zé com o cachorro vira lata dele. Latia tanto aquele bicho. Vinha o Seu Alfredo. A Adilzia. O Zé dizia com sotaque paranaense: que coisa, né, Nelson! E dali se emendava uma conversa dos queixumes da vida. E também alguma enquete: é pior quando falta luz ou quando falta água? E depois vinham outras conversas. Uma solidariedade às avessas, quase um evento. Era assim que faltava luz na Rua São Paulo, em Agrolândia. Eu achava a vida muito estranha sem energia elétrica e isso que eu ainda nem era viciada em internet. Logo a luz voltava e era aquela alegria. Uma comemoração. Adorava a disputa pra ver quem ia apagar as velas e depois a correria pro pátio pra não sentir o cheiro de igreja que se espalhava pela casa. Aqui não sei bem o que fazer quando a luz apaga. Então escrevi este texto a mão, treinando bem a letra, e de vez em quando arriscando uma maiúscula estilizada. Sorte que estou de malas prontas. Neste Natal, será sorte ou azar se formos todos pra frente de casa no escuro?