Por: Carmen Marangoni | 29/03/2019

Não sei por que, mas não raramente tenho a sensação de que algumas pessoas não vão morrer. Não sei explicar bem o motivo. Não é porque elas são adoradas ou odiadas pela humanidade. É mais uma atitude perante a vida. Como se a morte fosse uma covardia, mas só para algumas pessoas, evidentemente. Tenho uma tia, por exemplo, que é assim. Ela veio nos visitar para dar notícia de um parente que está doente. Enquanto descrevia a situação, que nos é dolorida, fiquei pensando que parece que ela não vai morrer nunca e por causa disso tem uma postura de gente eterna mesmo. Ela seca a louça de um jeito que parece que não vai morrer. Batiza os filhos de um jeito que não vai morrer. Mexe a carne ensopada de um jeito que não vai morrer. Corta o cabelo de um jeito que não vai morrer. Mas até desconfio que um dia ela vá morrer, assim, como todo mundo. Porque na verdade a gente morre mesmo. O taxista da minha cidade morreu ontem. Meu pai chegou em casa muito pálido, com sua expressão peculiar de quando algum desastre acontece, adoçou o café e disse meio baixo: adivinha quem acabou de morrer? A gente nunca adivinha, nem quer adivinhar. Só olha. Daí ele completou: o taxista. Fez-se um longo silêncio na cozinha. Mal dava para acreditar naquilo. O taxista? Ouviu-se um coro pela casa. Na minha cidade, até pouco tempo, coisa de uns cinco anos, sempre teve apenas um táxi. Digo, um único automóvel mesmo, que pertencia a um casal, conhecido por todos. Agora tem dois. Mas o quente mesmo continua sendo o velho e bom táxi de toda a vida. O outro a gente nunca decora o número para ligar. Bom, isso não é lá tão impressionante para quem mora aqui. Sempre teve apenas um único sapateiro, também. Mas o fato é que ontem ele chegou de uma “corrida”, estacionou o táxi na garagem de sempre, em frente ao colégio e também quase em frente à sua residência e quando foi atravessar a rua para chegar em casa, caiu e morreu. Foi acudido pelas pessoas que estavam passando, veio ambulância, mas não adiantou. Ele já tinha morrido. Espantosamente, não tinha mais nada que pudesse ser feito. O taxista tinha morrido. Aqui é muito importante reunir gente no enterro. Sempre significa ter sido uma pessoa do bem. Ou pelo contrário, mas também tendo seu considerável valor no final da vida, por ter sido uma pessoa polêmica. Por exemplo, o enterro de alguma amante conhecida, lota a igreja. Esta espécie de costume local é muito constrangedora. Não fui ao velório do taxista, não sou dada a estas alegorias. Minha mãe me disse, assim que voltou da igreja, que hoje em dia as pessoas não dão mais valor para estas coisas. Segundo ela, e, inclusive me lembro bem, quando morria alguém, as irmãs da igreja católica faziam os alunos do colégio, nós, por acaso, fazer fila e ir até a igreja para velar o defunto. A igreja fica há uma quadra do colégio, por sorte. Sempre em fila íamos até o caixão. Sem poder se demorar, voltávamos por outra fila de bancos. Depois seguíamos para a escola, seguir com a aula como se nada tivesse acontecido. Eu sempre tinha ímpetos de lavar as mãos, se era antes do recreio, ficava ainda sem conseguir comer a merenda. Também tinha outro complicador. Quando morria alguém em aula bacana como a de geografia, português ou ppt (preparação para o trabalho), em que se bordava tela em ponto cruz, a gente ficava um pouco intrigados. Quando chovia também não era muito bom realizar aquela procissão, mas quando a aula era de moral e cívica ou matemática, aí, contudo, ninguém reclamava de se ausentar por uns trinta minutos para velar defuntos desconhecidos. Muitas vezes chegava alguém na sala e apenas dizia: façam fila. A gente ia saber só quando saia do portão do colégio qual seria o nosso destino. Nunca direcionei a palavra diretamente ao taxista. Mas, é claro, eu o conhecia bem. Lembro do sotaque que ele tinha. Parecia ter nascido em Florianópolis. Não sei mais dele do que o necessário: era um homem bom. Enfim, como com morte e fogo não se brinca, melhor não dizer mais nada, apenas que é quase impossível não tentar analisar a procedência desta minha tia.