Por: Carmen Marangoni | 22/09/2018

Você certamente já ouviu as pessoas falarem: fulana de tal tem uma mão boa para plantar. A salsinha, o repolho, a cravina. Tudo brota verde e vistoso no jardim e na horta. Dá gosto de ver. Beltrana sempre acerta o ponto do bolo. A cuca fica altinha. Aerada. Macia. A gente se obriga a repetir um pedacinho. Cicrana faz um creme caseiro de maionese como ninguém. Não dessora, é impressionante. Me peguei pensando nisso, porque muitas mudas não vingaram. Ou até mesmo depois de pegas, secaram por falta de água. Ou excesso de sol. Quase um crime. Porque a massa do bolo embatumou mais de uma vez. E achei melhor nem fazer a cobertura. Comemos meio encruado. Ou desistimos, simplesmente. Porque nem tinha coragem de começar a bater os ovos com o óleo. Imaginava que ia desandar. Assim, fui desistindo da maionese caseira no almoço de domingo preparado por mim. Me sentia incapaz. Hoje, acredito que era incapaz de ter paciência para executar qualquer uma destas tarefas. Era porque tinha um amor muito fraquinho para com elas. O que mais pode tornar alguém apto para o crochê, a culinária, a jardinagem, a costura, uma boa conversa, o trabalho diário, a vida senão o amor? E pode ser até na criação de um filho. Ou esta não é uma boa medida para saber quanto de amor você tem pela vida? E não precisa ser só em situação efêmera como essa. Dá para medir até na faxina da casa. No relacionamento com o nosso próprio amor. No amor com a gente mesmo. Passei a imaginar que poderia olhar para dentro de mim com mais amorosidade. Daí entendi que até o reflexo do espelho agradece este ato generoso. Sim, adjetivos para o amor. Ou derivações. Amor pode ser este carinho. Este entendimento. Amor pode ser tantas coisas, que lá no fundo, descortinadas, repaginadas, abertas, revelam a mesma fonte. É uma espécie de matriz. Este amor, quando não é rotineiro, precisa ser plantado dentro da gente. Feito muda de alecrim. É preciso cavoucar. Preparar a terra. Fixar a planta. Regar. Ter cuidado diário. Requer disciplina. Dá um trabalho danado. Mas se a gente se esmera, nossa, o resultado é lindo. O alecrim toma conta do vaso. Espalha perfume pela casa. Tempera a batata no forno. Fica bom no fim do dia como chá gelado. O sabor na boca se misturando à saliva. Fazendo a gente fechar um pouco os olhos de alegria.

É que com essa técnica, digo, com amor, a gente alcança a consistência para o glacê. Vixe, que palavra bem antiga. Alcança também o acabamento pretendido do ponto cruz. Consegue até acordar mais cedo – no inverno – com disposição para extrair o kefir ou fazer uma oração. É só com amor que a gente não esquece de molhar as plantas semanalmente. Acho que até por conta dele dá para arriscar uma caminhada semanal. Sozinho. Ouvindo uma música escolhida a dedo ou, até mesmo – apenas – o som da rua. O barulho que vem de dentro da gente. Mas este negócio de amor dá trabalho. Não é da noite para o dia. Estou exercitando há um bom tempo e ainda não calcei o tênis para ganhar a rua com a frequência que gostaria… sim, eu sei, é preciso se amar mais. Mas este texto não é para fazer esta lista do que pode melhorar se a gente acrescentar amor. É, com que sorte, para apaziguar. E talvez fazer uma pergunta: quanto do seu dia você tira exatamente para você? Reconhece a necessidade do amor para esta pausa? Comece respondendo esta pergunta. Depois, se quiser, pode brincar de enumerar como o seu toque de amor faz alguma coisa vingar de verdade. E por falar em vingar, a primavera está aí. Arregaçando as mangas. Colocando as flores para fora. É um bom começo para saudar a vida que se renova na natureza. É uma boa pedida para começar a olhar para si como se você desabrochasse. É um convite para florir para a vida. Aceite. E faça isso com amor, é claro.