Por: Carmen Marangoni | 06/04/2019

Abril é o mês de aniversário de Rio do Sul, como presente, resgatei uma das cartas que escrevi para o colonizador da cidade, que está publicada em Cartas para Frankenberger. Era para dizer para ele como eu chegava à cidade que tinha escolhido viver. A mesma que ele tinha pisado há mais de cem anos. Ele vinha da Alemanha, eu de Porto Alegre. Ele para ser o colonizador, eu para ser apenas mais uma moradora. Apesar de todas as diferenças, a mesma Capital do Alto Vale?

Rio do Sul, 07 de setembro de 2015.

A Francisco Frankenberger, aquele que chegou comigo, mas uma centena antes

Escolhi para o nosso início, o mês que para mim é o mais bonito do ano. Setembro. O prenúncio da estação das flores. Mas não é por lindeza que o elejo. É porque temos uma peculiaridade. Chegamos, nós dois, neste mesmo mês. A mim causou graça tal coincidência. E temos outra coisa em comum. Eu vim no dia sete. Você, no segundo dia do mês. Mas, cinco dias depois, no dia sete de setembro, começavas a lavrar a terra. Neste dia, nos movimentamos de um jeito que mudaria a nossa história para sempre. Como é que posso afirmar isso com tanta convicção, Frankenberger? É porque teu diário chegou até mim. Não mais escrito no teu idioma, o alemão. E no estilo gótico. Mas traduzido para o português. A leitura me deixou muito próxima à tua rotina. Fez com que eu refletisse sobre a minha própria, inclusive. Era um jeito teu de mostrar os teus afazeres. De programar os teus dias, quem sabe. Aquela tua escrita mudou a nossa história para sempre. Mas ainda chegaremos neste assunto. Agora, quero mesmo é te dizer que estamos, eu e tu, chegando à Capital do Alto Vale. Eu, no dia sete de setembro de 2010. Tu, no dia dois de setembro de 1892. Portanto, muitos anos antes. Eu cheguei de carro. Fui direto à Agrolândia, onde vivem meus pais. Mas minha primeira passada por Rio do Sul, sabendo que estava de fato de volta, foi uma espécie de trampolim. Ou uma montanha russa. O carro foi passando devagar na Rua Carlos Gomes, no centro. Era como se eu tivesse acordado depois de anos. Paramos eu e meu pai no sinal, este antes da praça Nereu Ramos. À direita, a fileira de taxistas. À frente, as árvores e plantas da pracinha. À esquerda, a Rua Tuiuti, na subida do Hospital Regional. Era Rio do Sul. Quantos anos depois. Quanta mudança. A cidade parecia tão pequenininha. Talvez porque eu também estivesse fazendo conexões com as lembranças da infância. Naquelas vindas com a mãe de ônibus, onde a acompanhávamos para resolver alguma questão. Vir a Rio do Sul era sinônimo de ter compromissos. Coisa de gente grande. Aqui se resolviam pendências com INSS ou coisa que o valha. Não que isso tenha mudado de todo. Depois, tomávamos um sorvete olhando o chafariz da praça. A gente nunca ia embora sem dar uma passadinha no Bazar do Vavá. A mãe dizia que tudo o que se procurasse estaria naquelas prateleiras. Eu entrava na loja com olhos arregalados. Ia para casa pensando: mas será que tem de tudo mesmo? Isca de pescar, acho que não vi. Nem quilica. Daí, quando era dia de voltar a Rio do Sul, brincava na inocência da infância em alcançar estes objetos com os olhos. Tudo para comprovar ou não a tese da mãe. Estes pensamentos todos borbulhando na minha cabeça de 31 anos de agora. Isso porque Rio do Sul me enchia os olhos. Tantos anos e com tantas histórias depois. Ali, parada no sinal, a cidade parecia muito limpa. Com esta decência dos municípios menores. Se você comer um pastel de carne na rodoviária não vai morrer intoxicado, por exemplo. As fachadas das lojas conservadas. Os vidros tinindo. Dá até para lamber. Algum lojista esfregando a calçada com sabão em pó. Pouca gente vendendo coisas pelas ruas. Se encontrar um mendigo pela rua, leva um susto. Poucas cenas tristes por aí. Para não dizer nenhuma. Digo isso porque quando fui viver em Porto Alegre para estudar, lá pelo ano 2000, registrei cenas que paralisaram o meu mundo. Como dormir quentinha no inverno se passava também de carro, mas desta vez com meu tio Vicente Bogo, e vi uma mulher desesperadamente tentando fazer uma fogueira para se aquecer? Tive vontade de descer. Meu tio já não via mais, estava acostumado. Anoitecia. Ela juntava uns galhos, colocava fogo, as chamas subiam um pouquinho e logo a coisa ia minguando por conta da garoa. Era frio. Ela estava numa pracinha minúscula. Outra vez vi um menino, numa saída de festa, pegando um cigarro do chão. Ele não deveria ter mais de dez anos. Tentava desesperadamente fumar o cigarro ainda em brasa. E um outro dia, ainda, flagrei um homem quebrando um tijolo para tentar mastigá-lo. Era mais fome do que loucura. A gente conseguia enxergar esta diferença. Foram os primeiros registros de um mundo muito mais hostil. Diferente da realidade do Alto Vale do Itajaí. Todas estas lembranças fazendo voltas pelo ar. Aqui, parada no sinal, no carro com meu pai, o mundo parecia emitir apenas uma mensagem: você está voltando para casa. O mundo vai proteger você. E assim, olhando a cidade tantos anos depois, era exatamente o que eu sentia. O sinal abriu. O carro seguiu pela ponte Curt Hering. Quanta vontade de estar de volta. Quanta curiosidade para ver como Rio do Sul me receberia. O que será que mudou? Te falo tudo isso Francisco Frankenberger, nesta viagem de passado e futuro, porque resolvi te escrever. Quero saber mais sobre você e também te contar um pouquinho como está a Rio do Sul de agora. A que eu mesma estou sedenta por descobrir. Até breve.