Por: Carmen Marangoni | 29/09/2018

Hoje a caminho do supermercado vi um menino. Era um menino magrinho. De uniforme muito bem lavado. Com uma mochila grande. Que parecia pesar-lhe nas costas. Ele atravessava a rua. Na faixa. Estava na mira do olhar atento da mãe do outro lado da rua. Só tiraria os olhos dele quando entrasse no portão da escola. Ele não a via. Ela não o perdia de vista. Ele atravessou o portão. O que carregava naquela mochila? O que ali o prepará para a vida? O que espera da vida este menino? Este menino nunca brincou de amarelinha na rua. Talvez não saiba o que é anoitecer, numa noite de verão brincando de mata soldado com os vizinhos. Talvez nunca tenha tomado banho de rio. Numa água fria e limpa. Escorregado numa pedra sabão. Levado umas varadas de marmelo. Como é que brinca este menino? Ele não viu o Brasil ser Penta. Nem chorou com a morte do Ayrton Senna. Nem ficou na frente da TV vendo o impeachment do Collor. Ele não acha engraçado o jingle “Dois patinhos na Lagoa vote Afif 22”. Nem nunca vai saber o significado de outro jargão: “Meu nome é Enéas”. Mas ele deve saber de coisas que nem eu e talvez nem a mãe dele sabemos. Porque ele nasceu faz pouco tempo. Ele tem olhos muito novos para o mundo. Vai ver coisas que talvez não vamos mais ver. Ou porque não entendemos ou porque já não estaremos mais em sua companhia quando as enxergar. Será que este menino, que cruzou agora o portão da escola vai estudar para ser o número um? O que é ser o número um? É tão importante assim? Vai se sentir preparado para a selva da competição desenfreada que a vida se embesta de ser de vez em quando? Como será para ele lidar com o conceito de ser feliz? O que é que vai importar e fazer diferença na vida dele? A minha mãe é professora aposentada. Daquela época em que se ensinava quatro turmas numa mesma sala de aula. O quadro negro dividido, portanto, em quatro partes. A merenda sendo preparada por ela ao mesmo tempo em que rabiscava as primeiras letras e as tabuadas neste mesmo quadro que ia ficando branquinho de giz. Eu não era nascida na época em que a minha era professora e quase a delegada. Porque ser professor naquela época era como ser doutor. E ela era. Este menino que ainda nem chegou na sala de aula vai aprender alguma profissão do futuro que a gente ainda nem conhece? Vai se interessar por ela? Ela vai ser ensinada por quem ainda nem sabe bem que profissão é essa? E qual seria a profissão do futuro? E em qual Brasil ela poderia ser desempenhada? Qual é o olhar do professor que vai receber este menino quando chegar na sala de aula? Esta mãe pode decidir o futuro deste filho? Até quando o olhar dela vai protegê-lo de todos os perigos? E quais são os reais perigos da vida? Será que nós conseguimos lembrar qual era o peso da nossa mochila? Quais sonhos carregávamos nela? Será que a gente consegue lembrar em qual país gostaríamos de crescer e viver? Fomos nós que preparamos o país para este menino? Não fomos e somos todos este menino? Que adultos estamos sendo neste exato momento em que este menino entra na escola? Nós vamos saber olhá-lo com este mesmo afinco que a mãe dele o observa? Ou ele está à merce da própria sorte? Por que estamos todos a gritar os nossos sins e os nossos nãos como se bastasse apenas o desespero de defendê-los? Nós sabemos por que falamos sim ou porque, de fato, decidimos pelo não? Quando é que deixamos de ser este menino? Quem irá conosco até as urnas nesta próxima eleição? Que vai ser, é certo, daqui a pouco? Estaremos escolhendo o melhor futuro para os nossos meninos? Está apenas na urna esta decisão? Hoje, quando seguia em direção ao supermercado e enxerguei primeiro este menino e depois fui fisgada pela mirada de sua mãe, percebi que é o amor que rega a vida. É a partir deste sim que podemos escolher, eleger, crescer, ser. Não há outro modo de confiar. Aprender. Ensinar. Mas muitas vezes caminhamos pela vida apenas nos querendo fazer ouvir. É por medo que o fizemos. É por carência. É por falta de esperança até. Temos nossos motivos para desacreditar neste país. É por não saber silenciar para entender, talvez. Eu olhei para este menino que tão decididamente atravessava a rua e senti saudade da menina que eu era. Da menina que em algum lugar cochila dentro de mim. E então, quando já estava escolhendo os itens da minha lista, enquanto me surpreendia pelos valores absurdos que deixamos no supermercado, percebi que não podemos deixar de ser, de estar, de amparar aquele menino. Ele é um pouco da esperança que perdemos com os anos. Que desacreditamos em nós e em nosso país. Mas sem que a gente se acalme, sem que a gente siga com um passo certo não vamos chegar a lugar algum. Ainda não decidi em quem votar nesta eleição. Não vai ser o panfleto afogando a caixa de correspondência que irá me fazer escolher. Não vai ser a ira. Muito menos a desesperança. Aquele menino de certa forma nesta manhã de quinta-feira me lembrou que o caminho não é por aí. E que para que ele possa continuar a dar os seus passos, os primeiros de sua vida, precisa ter olhos atentos sobre ele. Primeiro o da mãe. Depois os nossos. Mesmo que ele não esteja vendo. Nós somos agora um pouco destes olhos também na hora de votar. Não vamos deixar de ver. Mesmo que esteja difícil olhar. Não vamos esquecer do amor.