Por: Carmen Marangoni | 22/06/2019

As nossas memórias afetivas nos trazem sempre para casa. Para o sabor da comida da mãe. Para o colo já conhecido. Para as mãos que estamos acostumados a receber carinho. Para o aconchego dos amigos que nos viram crescer ou que fazem parte da nossa vida. Para a nossa história. Talvez, porque seja feliz encontrar conforto em quem somos, nas coisas que acreditamos e nas pessoas que nos cercam. Mas há um momento na vida em que mais do que se despedir de peças de roupas que já não nos servem, é mesmo preciso se entregar para o novo. Para além de um sabor ou até mesmo da temperatura que estamos ambientados a experimentar no início de uma estação. Então, como num passe de mágica, soltamos o conforto do que já sabemos e que até nos define, para agarrar o desconhecido. O novo precisa ser amparado pela coragem, mesmo que tudo na volta soe completamente estranho. É quando saímos do ninho para saber até aonde as nossas asas podem nos levar. O que estaremos vendo a partir do território que escolhemos sobrevoar. Digo tudo isso porque é exatamente assim que me sinto nos últimos dias ao chegar em Portugal. Para além das pessoas que conheço por aqui e para os trabalhos literários que já desenvolvo nas terras portuguesas há quase uma década (e que sempre me fazem voltar), estou literalmente olhando para novos horizontes. E se há o medo do desconhecido, com a mesma força existe também a surpresa de encontrar repouso na novidade. Foi assim que me senti ao chegar em Porto, no Norte de Portugal. Uma cidade que eu já havia pisado em 2010. Daquela vez, chovia muito e eu fiquei na cidade apenas um dia. Não cheguei a dormir nela. Não cheguei sequer a vê-la por conta do mau e da falta de tempo que fazia e eu tinha. Então, dessa vez, era como se ainda fosse a primeira. A minha necessidade de ver não estava esgotada. Eu ainda tinha tudo para enxergar. Como não poderia deixar de ser, sei que chega ao Porto uma mulher diferente. Sedente por experiências diferentes daquela que veio há quase uma década. Ao pegar o metro, não sabia quem iria abrir a porta de casa para me receber. E, para minha alegria, eram dois brasileiros. Um deles, amigo de infância do meu parceiro de viagem, o Flávio Michelutti, que lançou comigo meu último livro, A Cura Através do Coração. O Anderson, de Florianópolis, me apresentou o Willian, que nasceu em Canguçu, no Rio Grande do Sul e antes de começar a viajar pelo mundo morava em Canela. Para além da saudade de um bom churrasco ou do tortei de abóbora feito pela mãe, estávamos nós todos ali curiosos para saber porque a nossa história está se encontrando. É bom ser bem recebido ao estar longe de casa. A gente está muito mais necessitado deste tipo de conforto. É ainda melhor ter disponibilidade para estar longe e saber que de alguma forma, mesmo que completamente diferente do que estamos habituados, o mundo nos abraça. Depois do Anderson e do Willian, vimos chegar também o João, da Bhumi Portugal (http://bhumiportugal.com). E logo fomos formando uma nova equipe – mesmo que passageira. Ao estar numa viagem, o tempo é sempre uma nova dimensão de mensurar as horas. E eu não tenho dúvida alguma que é por isso que o por do sol no Jardim do Morro em Vila Nova de Gaia estava tão vibrante. Que a Rua das Flores, tinham gerânios iguais ao do jardim da minha mãe, mas quem sabe, com um aroma ou tonalidade diferentes. E é por isso também que visito mais do que o Porto. Visito novas possibilidades de ver e de sentir o mundo. E, para além de estar num meio conhecido ou não, não demorou quase nada para me sentir em casa. Aliás, tal qual a música que começou a tocar por acaso, nós somos a nossa própria casa. É bom que nela caibam janelas que sempre possam ser abertas.