Por: Carmen Marangoni | 24/05/2019

Ontem, no café da manhã que tomei na cafeteria da Rui Barbosa, uma amiga me disse que tinha previsão de ciclone para hoje e que no sábado vai esfriar muito. Perguntou se eu tinha ouvido a notícia. Disse que sim e depois pensei que faz quase um ano que não acompanho efetivamente as notícias. Talvez já nem possa mais ser considerada uma jornalista. Depois, pensei que essa minha amiga é muito bonita e disposta para a vida e, ainda, que ciclone parece ser coisa que só acontece longe daqui. Hoje, quando abri os olhos, ainda na cama, estava preparada para um ciclone. Coloquei uma blusa vermelha bem grossinha, caso já começasse a esfriar. Mas só choveu. Só, não, porque teve relâmpagos. Um bem forte e eu pensei que talvez fosse a anunciação do ciclone. Mas até acho que não era. O frio parece ter se antecipado ou a notícia que minha amiga ouviu não era muito precisava. Previsão do tempo é uma coisa pouco exata. Porque de uma hora para outra tudo pode mudar. O que não muda é o fato de ser sexta-feira de outono com chuva e um pouco de frio. Quando chove a gente se veste diferente. Branco não combina com chuva. Nem sandália, por exemplo. E parece que sempre cai bem uma sopa ou alguma coisa que tenha açúcar. Pode ser pipoca. Ou até um copo de chocolate quente. Chuva, para mim, combina com filme. Quando chove parece que a gente não consegue sair para o mundo com liberdade, daí acaba ficando introspectivo e acaba por se reparar um pouco. Agora a pouco conversava com um amigo brasileiro que vive em Lisboa, mas que está em Milão e dizia para ele que precisava escrever e não sabia sobre o que. Que nada me inspirava por conta da preguiça que a chuva me trouxe. Ele disse para escrever sobre com quem falar num dia de chuva. Disse que iria tentar. E estou tentando. Mas agora, de repente, me deu vontade de falar dele. Ele é mais importante do que a chuva para mim nesta sexta-feira. Somos amigos há pouco tempo e temos conversado muito desde que começamos de fato a conversar. Conversamos sobre tudo. Quase que o tempo inteiro por WhatsApp. Porque combinamos que seria assim. Somos quase um clube de conversadores. Conversar é tão bom. Ainda mais com gente que a gente gosta de conversar. Conversar é meio como escrever. A gente não sabe bem o que vai falar até começar. Pode ser que a conversa nos leve para longe ou para dentro. Não importa. Mas sempre nos mexe de lugar uma boa conversa. Um dia de chuva é um bom dia para conversar. Para tomar um café com bolo e não se preocupar com as horas. Claro, se a gente pode fazer isso. Gosto de dizer que não se conversa mais como antigamente, porque adoro por a culpa de muita coisa nas redes sociais, embora seja uma usuária assídua delas. Mas a grande verdade é que tenho conversado muito nos últimos meses. Quase não digo mais não para um café com qualquer amigo que se convide. Arranquei tempo para isso na minha vida. O tempo é muito relativo. Ando com ojeriza de gente que diz que não tem tempo. Quem somos nós se não conseguimos organizar o próprio tempo? Depois dá para colocar na lápide: viveu, mas teve pouco tempo para a vida. Esse texto está parecendo mais uma equação óbvia: chuva + tempo + conversa = vida. E fica mesmo aqui como sugestão para o fim de semana (que promete esfriar e até parece que vai ser com chuva). Chame um amigo para conversar. Não importe onde. Nem como. Muito menos sobre o que. Mas converse. Conversando a gente sempre se entende. E arranjando tempo para o tempo, também.